Quem quer pôr bombas vem de avião, não se mete em barcos que podem afundar

"Há que não baralhar as coisas", declara o alto comissário da ONU para os Refugiados em entrevista à Renascença. Diz que o termo "migratório" tem sido "indevidamente" utilizado porque "a maioria das pessoas que está a chegar são pessoas que fogem aos conflitos".

O alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, rejeita, em entrevista à Renascença, os argumentos dos que dizem que entre os refugiados pode haver terroristas infiltrados. Os bombistas chegam de avião, diz, e o que a Europa precisa é de aumentar a fiscalização dos aeroportos e dos documentos.


Nesta entrevista, Guterres conta que na semana passada foi ao Golfo Pérsico apelar a mais solidariedade para com os sírios. Diz ainda que a sociedade europeia está a "ensinar" aos governos o que eles devem fazer e afirma que "a seu tempo se verá" se se candidatará a secretário-geral da ONU.

Falou numa triagem que deveria ser feita, também falou no receio da infiltração de terroristas nestas ondas migatórias. Como é que se pode ter alguma segurança abrindo as portas a esta rota migratória?

Em primeiro lugar, a palavra "migratório" está indevidamente usada. A maioria das pessoas que está a chegar são pessoas que fogem aos conflitos, à guerra. Estamos, de facto, perante uma crise que é, essencialmente, uma crise de refugiados e não uma crise migratória. No caso italiano, haverá 50/50 das duas situações: migração económica e perseguição politica ou fuga ao conflito. Mas, do lado grego, que é o que agora importa, a esmagadora maioria, mais de 80%, são pessoas a fugirem de situações de conflito absolutamente dramáticas, a tentarem salvar as suas vidas e a tentarem reconstruir o seu futuro. 

A nossa experiência é a de que os movimentos terroristas e os movimentos de combatentes não se fazem metendo-se em barcos que podem afundar-se. Essa gente ou tem passaportes reais ou tem passaportes falsos, toma uma "low cost" para a Turquia, ou vem de "low cost" da Turquia para os países europeus, entra pelas fronteiras habituais. Há que não baralhar as coisas. 

Essa gente que se mete num barco que pode afundar, com a família, não é para vir pôr bombas, é para salvar as suas vidas. Se for para vir pôr bombas, há outras maneiras mais eficazes. 

O que está em causa é o esforço que os governos europeus têm de fazer na vigilância das suas fronteiras, no controlo dessas mesmas fronteiras, na detecção de documentos falsos, mas isso não tem a ver com este movimento de refugiados. Tem a ver com o que ocorre todos os dias nos nossos aeroportos por onde circulam grande parte dos elementos perigosos. 

Temos a ideia, talvez errada, que os migrantes que fogem à guerra e ao terror que se vive na Síria ou na Líbia tentam vir para a Europa, mas há Estados árabes relativamente próximos e bastante prósperos. Não deviam estar também a acolher refugiados até por serem países muçulmanos, culturalmente mais próximos destas pessoas?

Temos feito um apelo muito claro nesse sentido. Acabo de vir dos Emiratos Árabes, de Abu Dabhi, onde fui falar à imprensa do Golfo com esse objectivo. Embora se deva reconhecer que alguns dos países do Golfo têm tido uma acção humanitária muito forte na Síria e nos países à volta da Síria. Na Arábia Saudita, já há centenas de milhares de sírios e têm-lhes sido dados todos os direitos de acesso ao mercado de trabalho, de acesso à educação, à saúde. Agora, em relação aos sírios que estavam no Iémen e que foram para a Arábia também.

Não se pode dizer que nada esteja a ser feito, mas o nosso apelo é que haja maior receptividade também do Golfo Pérsico para receber sírios em situação difícil como aquela, que infelizmente hoje aflige a comunidade síria nos Estados à volta, seja no Líbano, na Jordânia, na Turquia, no Egipto ou no Iraque.

Fonte: RR

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