Madalena Oliveira, a mais violenta mulher da PIDE

É uma delicada senhora de 72 anos, mas não se contém e sussurra: "Ai esta cabra!" Já passaram 44 anos sobre aquele dia, em Abril de 1965, em que Conceição Matos foi espancada e humilhada pela agente Madalena, na sala de interrogatórios do terceiro andar da sede da PIDE. É muito tempo, mas a histórica militante comunista ainda hoje sofre de insónias.

Quando a SÁBADO lhe mostra as declarações da antiga funcionária da PIDE à justiça, nas quais esta desmente o seu depoimento, inquieta-se, agita-se na cadeira, deixa escapar o desabafo, quase imperceptível, e depois leva logo as mãos à boca como quem pede desculpa.



Conceição Matos tinha 29 anos quando foi detida no Montijo. Levaram-na para a sede da Polícia Internacional de Defesa do Estado, onde não a deixaram dormir nem ir à casa de banho – teve de fazer as necessidades à frente de toda a gente e ainda limparam os excrementos e a urina na sua roupa.

Ao fim de três dias, uma agente entrou na sala e comentou com o chefe: "Esta ainda cá está? Meu inspector, ela não fala connosco mas, se chamar a Leninha, talvez fale." Quando voltou ao edifício da Rua António Maria Cardoso, Conceição Matos percebeu que esta Leninha era a agente Madalena, "uma mulher tenebrosa", como lhe chamou durante a conversa com a SÁBADO. Perante a sua recusa em delatar as actividades do PCP, um inspector avisou: "Então vamos começar com o espectáculo!"

"Chora, sua puta, não te podes rir"

"Fala ou não fala, sua puta?", perguntava Madalena, enquanto a despia, peça por peça, com a ajuda de uma colega. Uma dezena de homens da PIDE entrou na sala, para ver uma mulher sem roupa, que tentava esconder-se atrás de uma secretária mas era puxada pela agente Madalena, para ser vista por todos. Conceição Matos desatou aos gritos, a contar o número de agentes que se encontravam na sala – quando chegou ao décimo, os polícias sentiram-se intimidados e saíram. "Ela começou a dar-me pontapés nas canelas, bofetadas e murros na cara, deu-me um ataque de riso nervoso e ela só dizia: ‘Chora, sua puta, não te podes rir, tens de chorar.’"

Entrou na sala um agente com uma máquina fotográfica, que ficou desiludido por ver a presa já vestida, e Madalena respondeu-lhe com "uma série de ordinarices", recorda Conceição Matos: "Ver nua, esta merda? Ela não vale nada. Para os comunistas qualquer merda serve. Basta ter um buraco e fazer os movimentos."

A violência acabou quando a agente se cansou. "Vamos embora que esta merda não fala. Se eu ficar mais tempo espatifo-a toda." São as últimas palavras que a militante comunista se lembra de ter ouvido de Madalena. Só voltou a vê-la mais de 10 anos depois, quando depôs no julgamento. Quando falou com a SÁBADO, nem sabia que Madalena já morreu há seis anos. 

"Nem te lembras do teu filho"

Conceição Matos foi uma das cinco pessoas que testemunharam contra Madalena Oliveira no Tribunal Militar, em 1977, de acordo com o processo consultado pela SÁBADO no Arquivo Histórico-Militar. Maria Madalena Castanha, camponesa analfabeta do Couço, no Ribatejo, acusou a ré de lhe ter dado uma "sova assustadora", que a deixou a sangrar do nariz e com várias feridas na cara, provocadas pelo impacto dos anéis de Madalena na sua pele.

Maria Custódia Chibante registou o "porte altivo e olhar cínico" da agente, que lhe deu pancadas na nuca. "Esta está à Camões", terá dito Madalena quando a viu já com um olho negro, depois de ter sido espancada por outra agente por se recusar a comer.

Maria da Conceição Figueiredo também se queixou de ter sido espancada e esbofeteada com um depoimento pleno de rancor: "É mal empregado empregar-se o termo de mulher porque não o era, era uma fera, uma víbora venenosa. (...) Era tão vil essa fera que quando me espancava falava no meu filho. Como eu nada dizia nem chorava, pelo contrário até parecia que ganhava mais coragem, dizia: ‘Puta, que nem te lembras do teu filho.’"

Madalena Oliveira e os seus advogados foram desmentindo ao longo do processo que tivesse torturado qualquer presa e alegaram que todas as testemunhas de acusação estavam a ser manobradas pela "máquina montada pelo PCP" em busca de uma vingança contra a perseguição da PIDE. Mas o tribunal valorizou a espontaneidade das queixosas, "algumas delas simples mulheres do povo". A sentença, lida a 25 de Julho de 1977, condenou-a a uma pena de quatro anos e quatro meses de prisão, por ter cometido crimes de violências desnecessárias no exercício de funções e por ter sido chefe de brigada – foi, aliás, a única mulher a atingir um posto tão elevado na hierarquia.

A promoção foi justificada com "méritos extraordinários" num despacho assinado pelo director da PIDE, Silva Pais, em 1968, quando Madalena tinha apenas 31 anos. Filha de uma doméstica e de um electricista, e sobrinha de um simpatizante comunista que passava informações à polícia, Madalena Oliveira entrou na polícia política como escriturária em 1955. Conheceu pouco depois o homem com quem iria casar-se, quando se deslocou a Braga para assistir a um jogo de futebol do Benfica, de que era adepta ferrenha.

Após uma lua-de-mel no Hotel Estoril-Sol, apenas viveram juntos dois anos. Madalena Oliveira descobriu, entretanto, que o marido tinha outra família no Minho, com várias crianças, uma das quais nasceu na mesma altura que o seu filho. 

A relação foi sempre tumultuosa, ao ponto de o marido ter sido detido pela PIDE, depois de vários episódios de violência doméstica. "Ela chegou a ter os óculos postos noite e dia para disfarçar os olhos pretos, por causa das murraças que ele lhe dava", recorda Maria Lucinda, 61 anos, uma das melhores amigas de Madalena desde a infância e sua testemunha de defesa no julgamento – ainda se recorda do alarido das sirenes e polícias armados que rodeavam a ré à chegada a tribunal. "Impressionou-me bastante. Pensei que vinha lá uma assassina e afinal era a minha Nani." Era esta a alcunha da agente Madalena junto da família, onde nunca foi conhecida por Leninha. 

A seguir à revolução, Maria Lucinda viu na comunicação social acusações terríveis à amiga, mas não teve coragem de lhe perguntar nada sobre elas. Também nunca falaram sobre a PIDE. "Pensei: ‘Ó meu Deus, será que fazia estas coisas?’ Eu não acredito. Mas se fez mal a alguém, foi bem castigada porque teve uma vida muito difícil."

Sempre de pistola na mala

O filho da agente, Luís Marques, 53 anos, lembra-se de que a mãe aproveitava a regalia de não pagar bilhete no cinema para ir ver todos os filmes de acção, violência e espionagem. Mas raramente contava histórias do trabalho em casa. Apenas recorda à SÁBADO uma operação que a mãe lhe descreveu e que pode ter justificado a promoção: "Recebeu um louvor porque ajudou na detenção de um elemento perigoso no Montijo – ele ia de bicicleta e quando mudou de direcção a minha mãe saiu do carro de arma na mão para o prender."

Madalena Oliveira andava sempre com a pistola na mala, desde que passou à categoria de agente, em 1961 – foi nessa altura que as mulheres entraram em força na polícia política, para substituir os agentes destacados em comissões de serviço para África, por causa da guerra colonial. O seu trabalho principal quando deixou as tarefas burocráticas passou a ser o acompanhamento e vigilância de detidas. "As agentes estavam nos piquetes da tortura de sono, para não deixar os presos dormir, participavam nos espancamentos e revezavam-se de quatro em quatro horas. Depois vinha o inspector mais responsável pela instrução do processo, para fazer as perguntas", explica à SÁBADO a historiadora Irene Pimentel, autora do livro A História da PIDE. Segundo a investigadora, as agentes destacavam-se ainda por rebaixarem os presos com provocações sexuais.

Citado no livro Memórias da Resistência Rural no Sul, Couço 1958-62, de Paula Godinho, Jerónimo Bom conta que a agente Madalena o despiu e lhe mexeu em todo o lado, chamando-lhe "paneleiro e panasca" para o humilhar. Também Helena Neves relatou em 1994 à Visão a forma humilhante como Madalena a revistou à entrada de Caxias – "Enfiou-me dois dedos na vagina e comentou: ‘Sabe-se lá onde vocês metem as coisas!’"

Eugénia Varela Gomes, outra presa política, relatou uma proeza: como conseguiu não ser agredida pela agente Madalena, que a vigiava num dos turnos da noite, quando foi interrogada em 1962. "A raiva dela crescia, massacrava-me com insultos, era a agente mais malcriada e mais violenta, mas ainda não me tinha tocado."

Eugénia foi presa depois de o marido ter liderado o "golpe de Beja", um assalto ao quartel daquela cidade para iniciar o derrube do regime de Salazar. A todas as perguntas da PIDE, nos sete dias em que a mantiveram retida no edifício da Rua António Maria Cardoso, respondia o mesmo: "Não participei nem na preparação nem no assalto ao quartel de Beja, mas estou de alma e coração com o meu marido e os companheiros dele." 

Numa das noites, quando percebeu que a agente Madalena a ia atacar, teve reflexos para se esquivar: "Ela vinha furiosa para me bater, já com a mão levantada, e eu disse-lhe, sem mostrar nervos: ‘Há uma coisa que gostava que me explicasse: parece que tem uma raiva pessoal contra mim. Foi maltratada em pequena?’"

A pergunta desorientou a agente, que baixou a mão: "Eu, maltratada? Nunca." E começou a contar a história da sua vida. "Devo tê-la atingido. A partir dessa noite, parece que ganhou medo de mim. Deixou de estar à vontade para me massacrar. E o murro que eu ia levar ficou no ar", conta à SÁBADO Eugénia Varela Gomes, actualmente com 83 anos, 47 depois de ter estado presa. 

O encontro com Salazar

Eugénia já não se lembra da história que Madalena lhe contou, mas dificilmente a agente terá partilhado com a presa um dos episódios que mais lhe marcaram a infância: a primeira vez que viu Salazar. "Ela era menininha e estava na rua com os pais a ver um cortejo. Salazar passou, aproximou-se, falou-lhe, deu-lhe um beijo e ela ficou com uma grande admiração pelo senhor, por lhe ter dado importância. Aquilo ficou na cabeça dela. Era muito salazarista", admite à SÁBADO o filho de Madalena, Luís Marques.

Quase 30 anos depois, quando o ditador morreu, em 1970, a chefe de brigada ficou transtornada com a notícia e fez questão de participar no velório. Actualmente ainda há uma estatueta de Salazar exposta no armário principal da sala da casa que Madalena habitou até morrer, há seis anos, e que lhe foi oferecida pelo filho.

Logo a seguir ao 25 de Abril, dois homens invadiram a casa da chefe de brigada para a levar à cadeia. "Um deles foi preso mais tarde por ser informador da PIDE", recorda Luís Marques, que afugentou os assaltantes – e acha que o informador estava a tentar evitar a própria detenção.

A líder das reclusas após a revolução

A 28 de Abril de 1974, precisamente 85 anos depois do nascimento de Salazar, foi Madalena Oliveira quem se entregou na esquadra da PSP de Oeiras. Enquanto esteve em Caxias com as outras funcionárias da PIDE manteve a hierarquia e era uma espécie de líder das presas, segundo a descrição de uma testemunha detida nessa altura (e que pediu para não ser identificada). Madalena contou depois à nora (a mulher do filho também pediu para o seu nome não ser publicado) que impediu várias presas ligadas ao MRPP de serem espancadas na cadeia depois do 25 de Abril. 

Quando cumpriu dois anos de prisão preventiva, foi-lhe concedida liberdade condicional e Madalena fugiu – conseguiu passar a fronteira no carro de um amigo e instalou-se com o filho em Madrid. Na capital espanhola teve a ajuda de antigos altos responsáveis da PIDE, como Barbieri Cardoso e Cunha Passo: primeiro arranjaram-lhe alojamento numa zona frequentada por prostitutas, depois colocaram-na a trabalhar na moradia de uma basca, a tomar conta de duas crianças. Mas durou pouco tempo. 

"A minha mãe andava descontente, tínhamos deixado cá a minha avó, e estava sempre a pensar em voltar", explica o filho. Madalena escreveu então ao cônsul de Portugal em Madrid a admitir que tinha "abandonado precipitadamente o país" e que queria regressar. Foi presa novamente, julgada e condenada a quatro anos e quatro meses de prisão, mas o filho continua a defender a inocência da mãe: "Acho que o julgamento foi uma fraude. Elas testemunharam aquilo para que foram orientadas pelo PCP. A minha mãe pode ter batido numa presa mas sei que não era capaz de cometer aquelas atrocidades."

A nora de Madalena perguntou-lhe directamente pelas agressões e a agente admitiu ter recorrido à legítima defesa ao responder-lhe com nova pergunta: "Se você fosse polícia e uma presa avançasse para si e a agredisse, o que é que fazia?"

Um balde de água em cima

Madalena saiu da cadeia a 16 de Dezembro de 1977. Passou os últimos anos a tomar conta de crianças, mas antes ainda foi secretária numa oficina de Caxias, na Docapesca, no MIRN (Movimento Independente para a Reconstrução Nacional, um partido de direita) e no escritório de um supermercado na Avenida de Roma – numa manhã, quando ia a chegar ao trabalho, encontrou uma série de cartazes à porta, com o aviso: "A PIDE está a trabalhar aqui." Alguns colegas do escritório ajudaram-na a arrancar tudo.

Passou por um enxovalho maior quando passeava no bairro onde vivia: uma vizinha que estava à janela começou a insultá-la na rua e Madalena ameaçou: "Cale-se imediatamente ou eu atiro-a daí para baixo." A filha da vizinha que soltou os primeiros insultos pegou num balde de água e despejou-o em cima da antiga chefe de brigada da polícia política. E outras pessoas desataram a gritar e a apontar: "É a PIDE, olha a PIDE."

Já passaram 44 anos desde que foi despida e agredida, mas Conceição Matos não se esquece. Admite que dificilmente resistiria a insultar a PIDE Leninha se a visse na rua, tal como chamou instintivamente "malandro" e "bandido" quando se cruzou por acaso com o informador que a denunciou. "E ela teve o descaramento de negar que me espancou", indigna-se. "Não pode ter perdão. Eles estavam conscientes do que estavam a fazer."

Madalena Oliveira não resistiu a um cancro nos ovários e morreu a 22 de Novembro de 2003. Nenhum antigo colega da polícia foi ao funeral. A nora acompanhou-a mais nos últimos anos, nas sessões de quimioterapia no Instituto Português de Oncologia, e nunca lhe notou qualquer tipo de remorso em relação aos tempos da PIDE: "Nada, ela achava que não tinha de se arrepender de nada do que tinha feito."

(artigo publicado na edição 284, de 8 de Outubro de 2009, e agora republicado para assinalar os 70 anos da PIDE, que nasceu formalmente em 22 de Outubro de 1945)

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