BREXIT - Não votaram a saída da UE, mas sim a politica anti-imigração, xenófoba

Nunca duvidei que em caso de referendo o voto pudesse pender para a separação.

As estatísticas de emprego e desenvolvimento económico são enganadoras: o trabalho precário cresceu exponencialmente, as classes média e baixa vivem com maior precaridade que as gerações anteriores, os ganhos do escasso crescimento económico são apropriados pela elite que absorve 0,1% do topo dos rendimentos.

Foto: Cartacapital.com.br
Existe igualmente uma ideologia nacionalista que é erradamente considerada em declínio. O sentimento de abandono das camadas marginalizadas pelo processo de globalização é agora canalizado pela política anti-imigração, legitimada pelo referendo. Finalmente, as pequenas e médias empresas que se queixam da burocracia europeia não veriam com maus olhos a redução dos direitos dos trabalhadores e consumidores consagrados pela UE. Embora a história não se repita, há uma sensação do já visto em tudo isto.

A campanha de saída da UE é hábil: conseguiram fazer esquecer que os cortes orçamentais do governo conservador são largamente responsáveis pela falta de casas, pelo declínio do Serviço Nacional de Saúde e pelo aumento da insegurança. Convenceram boa parte da população que a raiz de todos os males reside na imigração descontrolada. Defendem que o dinheiro pago à União Europeia pode ser melhor aplicado pelo governo inglês nas necessidades locais, enquanto difundem a ideia que o Reino Unido é governado por Bruxelas.

Consideram irrisória a ideia de garantia de paz que as instituições europeias forjaram nos últimos setenta anos. Tudo isto num contexto internacional de relativa estagnação económica e défice democrático da UE. O voto pela permanência, em contraste, assenta numa série de dados económicos convincentes, na ideia que a separação rompe com a estabilidade financeira, comercial e política, comprometendo ainda mais as fracas perspectivas de crescimento, na visão do impacto benéfico da imigração como forma de rejuvenescer a população e sustentar algum desenvolvimento económico. Mas é um discurso defensivo, sem o elan do suposto impacto galvanizador da "recuperação da soberania".

Num ambiente de viragem à direita do eixo da política internacional, é curioso observar como a União Europeia, criada no quadro de uma ideologia capitalista, seja agora vista como um reduto de direitos ameaçados. É esta luta de retaguarda que explica a estranha aliança entre as grandes empresas e os sindicatos, entre a lógica de acesso a grandes mercados internacionais como a UE e a defesa de direitos fundamentais. Não deixa de ser significativo que a luta britânica entre ficar ou abandonar a União Europeia esteja limitada ao partido conservador, dividido entre David Cameron e Boris Johnson. O Partido Trabalhista passou a ser um espectador, deixando praticamente de existir neste debate, embora os esforços desenvolvidos pela velha guarda tenham sido silenciados pela vasta maioria da imprensa, favorável ao Brexit.

Neste quadro, que poderá ter como consequência dramática o esvaziamento de um partido necessário aos equilíbrios políticos e sociais, a campanha pela saída deixou de ter qualquer escrúpulo, respondendo ponto por ponto a todos os dados económicos que favorecem a permanência na UE. Resultado, empenhou-se em promessas avaliadas em mais de 113 mil milhões de libras que sabem perfeitamente não poder satisfazer. A demagogia deixou de ter limites.

Mas haverá preço a pagar? Não: em caso de saída as dificuldades serão atribuídas à "herança" da União Europeia e à incapacidade de um governo conservador fraco em conter a imigração.

A acumulação de enormes problemas em consequência da saída da UE – queda da libra, crise económica, aumento do défice financeiro do Estado, provável separação da Escócia, descontentamento no País de Gales e na Irlanda do Norte – poderá não ser imputada aos proponentes da saída. A esquerda, por seu lado, não viu chegar esta crise e revela-se impotente para a conter. A nível internacional o efeito dominó da saída britânica significará o reforço da extrema-direita e, provavelmente, a dissolução da União Europeia, se não se souber reformar a tempo.

É ainda possível um sobressalto de racionalismo neste debate que se tornou feroz, baseado na emoção e no ódio. O que está em jogo aqui no Reino Unido é muito mais do que a sobrevivência desta entidade política, seriamente ameaçada por aventuras demagógicas; é a própria sobrevivência da Europa com as suas enormes capacidades culturais, científicas e tecnológicas que está em jogo. A União Europeia não poderá manter uma posição defensiva e de adiamento de decisões; terá necessariamente que se reformar e renovar numa ligação política fecunda com a maioria das populações envolvidas.

Professor, Charles Boxer e King's College London

Fonte: Público

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