Portugal arrisca tragédia com sismos

Portugal vai sofrer um sismo e não está preparado para isso. Em entrevista à RTP, o investigador Mário Lopes denuncia a falta de fiscalização nas construções novas e na forma como os edifícios antigos estão a ser reabilitados. “São baralhos de cartas”, garante, criticando os sucessivos governos que põem “o mercado imobiliário antes da vida das pessoas”.

Foto: RTP
Não se sabe quando, não se sabe com que intensidade, nem exactamente com que consequências. Mas há uma certeza: “A sorte não dura para sempre” e Portugal será afetado por um sismo que poderá ter consequências trágicas.


O alerta é deixado por Mário Lopes, investigador do Instituto Superior Técnico, em entrevista à RTP. O especialista em engenharia sísmica vê com preocupação os estragos que um terramoto poderá provocar em Portugal, nomeadamente em Lisboa.

O receio de um fenómeno como o que destruiu Lisboa em 1755 existe, mas não terá de ser tão forte para provocar danos consideráveis e causar dezenas de milhares de vítimas mortais, alerta o especialista. 

Mário Lopes considera que o respeito pelo atual regulamento o deixaria já descansado, mas avisa que não há fiscalização eficiente para certificar que é aplicado. “Só trabalha bem quem tem consciência e competência para o fazer. Se não tem pode aldrabar o projeto que não há consequências nenhumas até vir o sismo”, sublinha.

Mas não é quanto à construção nova que recaem as principais preocupações. É nos edifícios antigos e naqueles que estão a ser reabilitados. 

Mário Lopes denuncia que a legislação aprovada durante a intervenção da troika estipula que a reabilitação de uma obra não precisa de ter em conta a legislação posterior à construção original.

“Para qualquer edifício cuja construção original seja anterior a 1958, como a legislação tinha grau zero de exigência de proteção sísmica, pode continuar a ser zero”, denuncia.

O investigador denuncia por isso que está a ser feito “um peeling” a muitos edifícios, que “ficam bonitos” mas sem “condições mínimas de segurança”.

“São baralhos de cartas. Não precisam de um sismo como o de 1755 para caírem”, afirma. A política não é nova, na opinião de Mário Lopes: põe-se “o mercado imobiliário antes da vida das pessoas”. 

“Os Governos sabem o que estão a fazer e sabem que vai morrer gente por causa disso”, garante. “Falam connosco, dão-nos razão. Cinco minutos depois atiram tudo para o caixote do lixo”, garante o homem que presidiu até 2013 à Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica. 

O investigador do Instituto Superior Técnico tem uma explicação simples: “Não traz votos”. Mas nota que há exceções. “A Assembleia da República foi reforçada porque foi dito aos deputados que a parede da sala das sessões lhes caía em cima”, afirma. Mas ficou-se por aí. 

“É uma atitude egoísta. É primeiro tratamos da nossa pele com o dinheiro dos outros, o povo português que se dane”, acusa. 

Depois de anos e anos a lançar alertas ao poder político, Mário Lopes perdeu a esperança que algo mude em relação aos riscos e que haja ação por parte do poder político. 

Não deixa de transmitir conhecimento aos alunos do Técnico e de alertar para as medidas que cada um de nós pode tomar para evitar problemas maiores.

“A única coisa que podemos fazer é falar diretamente com as pessoas e ajudá-las a protegerem-se a si próprias”, explica. É esse o objetivo do projeto KnowRisk, que visa ajudar adultos e crianças a identificar os riscos e a incentivá-las a tomar medidas para reduzi-los, como explicou Mário Lopes na entrevista à RTP.

Um estudo do LNEC de 2006 estima que um sismo como o de 1755 possa provocar mais de 17 mil mortos. O cenário é hoje melhor ou pior do que em 2006?

Não mudou muito. Não pode mudar muito porque o parque construído pouco variou. A tendência é melhorar ligeiramente porque algumas construções antigas com menos resistência vão sendo demolidas, deixam de ser utilizadas ou caem e vão sendo feitas construções novas que, em média, são melhores. Mas isto é uma variação lenta.

A melhoria do parque se calhar é melhor do que o grau de incerteza do próprio estudo que apontava para 17 a 27 mil mortes. O parque construído está um bocadinho melhor, se calhar hoje não eram 17 a 27 mil, eram 15 mil a 26 mil ou assim.

Em dez anos não se evoluiu muito em termos de construção?

Não, não. O que digo é que as construções que estavam cá em 2006 continuam cá. São quase todas as mesmas. Houve algumas novas e houve algumas que foram demolidas. As novas que foram construídas, em princípio, são melhores do que as que foram inutilizadas, mas são uma parte pequena do parque construído. Portanto, a variação não é muito grande, logo os números continuam atuais.

Quando é que pode acontecer um sismo como o de 1755?

É aquela pergunta à qual a ciência não consegue responder porque a previsão sísmica não se consegue fazer em geral. Os sismos têm origem na crosta terrestre e a crosta é um material extremamente frágil que, em geral, não dá sinal antes da rutura. Só há um caso na história em que foi previsto um sismo, evacuada uma cidade e salvas as vidas a milhares de pessoas.

Nós podemos ter sismos como o de 1755 ou podemos ter outros não tão fortes. Se considerarmos sismos com um potencial destrutivo mas inferior ao de 1755, diria que estarmos mais do que umas décadas sem acontecer nada é sorte. É bem provável que nas próximas décadas possa haver algum sismo que cause centenas ou milhares de mortes.

Um sismo como o de 1755 tem um período de retorno que se pensa ser de algumas centenas de anos. Podemos ter a sorte de o próximo não ser tão forte, que é a situação mais provável.

Mas a situação pode ser tão má ou pior do que em 1755 porque as zonas com maior potencial para ocorrência de sismo – Lisboa, Vale do Tejo, Costa Alentejana e Algarve – têm muito mais população do que tinham em 1755. Um sismo mesmo que inferior pode em termos absolutos causar um número de mortes semelhante. Não é preciso um sismo como o de 1755 para termos aqui dez ou 20 mil mortes.

O último grande sismo que tivemos em Portugal foi em 1969…

Sim, mas o sismo de 1969 foi fraquinho. Em termos das acelerações que se sentiram em Lisboa, o sismo de 1969 foi cerca de dez por cento da capacidade de resistência dos edifícios prevista pela regulamentação atual. Aquilo, como sismo, foi um aperitivo. Foi só para nos lembrarmos que há aqui sismos. 

Agora, foi assustador. Vivi esse sismo, tinha nove anos, a cama andava de um lado para o outro, os pratos caíam dos armários, as pessoas estavam cheias de medo, vínhamos para a rua em roupa interior. Fui passar a noite ao aeroporto num carro. Foi um pânico grande mas aquilo não foi nada comparado com o que pode vir aí. Foi só para nos lembrarmos que às vezes há aqui sismos.

Depois há uma questão que é: mesmo um sismo que não seja muito forte pode causar muitos danos; mesmo que um prédio não caia, pode haver danos nas paredes e há todo o tipo de danos não estruturais.

É disso que trata o projeto do KnowRisk, tem muito a ver com evitar os danos dentro das casas porque o processo de cálculo dos edifícios tem como objetivo evitar que eles colapsem, mas não evitar que vibrem. Portanto, como vibram, tudo o que está dentro das casas pode cair e pode haver danos associados a isto. Basta um sismo mediano que já temos muito dano económico e muita gente ferida.

Os portugueses estão preparados para um sismo?

Há de tudo. Se tomarmos como exemplo Lisboa, o primeiro problema é que o primeiro regulamento que obriga a fazer o cálculo sísmico data de 1958. Ou seja, o que foi construído antes de 1960 não foi calculado para resistir a sismos. Em Lisboa são os edifícios onde vivem 40 por cento da população. 

Depois, em relação à construção nova, temos regulamentos mas a verificação da aplicação da regulamentação não é feita. Não há fiscalização e, portanto, há de tudo.
Quer dizer que a regulamentação é boa mas não há certeza de que esteja a ser aplicada?

Sim. De uma forma genérica, a primeira regulamentação de 1958 ainda é um bocado embrionária. Foi depois atualizada em 1983, mesmo essa de 1983 já está obsoleta, mas é uma questão política. 

A Comissão Europeia em 1988 começou a desenvolver regulamentos para aplicar na Europa. Como havia um para as zonas sísmicas, Portugal optou por pôr todo o esforço nesse e não fez um regulamento novo.

Mas desde a primeira versão deste regulamento já vão quase 30 anos. O nosso regulamento está desatualizado. Os gregos e os italianos atualizaram os deles com base no regulamento europeu e nós continuamos a trabalhar com o antigo. Mesmo assim, se seguíssemos esse regulamento era ótimo. Já as nossas construções teriam um bom nível de segurança.

O regulamento que esteve em vigor entre 1958 e 1983 representa uma melhoria muito significativa mas ainda seria preferível que fosse melhor. 

Agora, teoricamente, todos estes edifícios têm um nível de resistência razoável. Os atuais, se fossem bem feitos, teriam um nível de resistência ótimo. Se eu vivesse num edifício construído na atualidade, bem feito, eu teria muito mais medo de morrer atropelado ou num acidente de automóvel do que num sismo. 

O problema é que como não há fiscalização da construção e os sismos ocorrem com grandes espaçamentos temporais, qualquer pessoa que trabalhe no projeto ou na construção sabe que se fizer um edifício bem feito vende-o pelo mesmo preço que um mal feito. 

Não havendo fiscalização, em princípio ninguém é apanhado. Essa impunidade faz com que só trabalhe bem quem tem consciência e competência para o fazer. Se não tem pode aldrabar o projeto que não há consequências nenhumas até vir o sismo.

A consequência é que nós temos de tudo: construções boas de primeiro mundo e, ao lado, podemos ter um edifício igual, mas que é um baralho de cartas que se desfaz com o primeiro abanão.

Este não é o primeiro aviso que deixa. Porque não há fiscalização?

Não sei porque não há fiscalização mas sei que não é fácil fazer fiscalização eficiente. Não se trata de fazer uma lei a dizer que as câmaras agora têm de aprovar os projetos de estrutura. Se as autarquias não tiverem meios para fiscalizar, você pode fazer as leis que quiser que aquilo não funciona. No limite podemos ter o inconveniente de uma fiscalização ineficiente apenas gerar corrupção. Ou seja quem quer aprovar um projeto tem de pagar para o ver aprovado. 

Portanto, o problema não é arranjar uma fiscalização. É arranjar uma fiscalização que funcione e que atinja o fim que se pretenda. Não é fácil. A Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica tinha feito duas propostas nesse sentido. Eu acho que era preciso debater o problema com os agentes da construção, tentar otimizar essas propostas ou outras alternativas e depois avançar. Mas digo-lhe já que não há aqui nenhuma solução miraculosa que resolva tudo como deve ser. Todas elas têm vantagens e inconvenientes. 

Nós tínhamos apresentado uma proposta ligada aos seguros. As companhias de seguros têm interesse em segurar coisas que não têm risco. Nós também gostávamos de viver em casas com muito pouco risco, visto que sem risco não existe. Se as companhias fizessem seguros em que a componente do risco sísmico fosse proporcional ao risco real das construções, através dos seguros as pessoas apercebiam-se do risco da sua construção e isso ia influenciar o mercado para valorizar as melhores.

Mas a primeira vez que a comunidade técnica discutiu isto com um governo, a primeira coisa que disseram foi: estejam calados, não digam nada a ninguém porque senão as construções piores são desvalorizadas. Esse deveria ser mesmo o objetivo da política. Pôs se o mercado imobiliário antes da salvaguarda da vida das pessoas. Essa política ainda não se alterou.

Continua a pôr-se o mercado imobiliário à frente da vida das pessoas?

Obviamente. Claramente. A legislação sobre reabilitação urbana é exatamente o reflexo disto. Quando a legislação foi discutida em 2012 e se abriram exceções ao regime jurídico da reabilitação urbana, fomos ouvidos pela Assembleia da República e propusemos que o reforço sísmico passasse a ser obrigatório em obras a partir de um certo valor ou de uma certa dimensão.

O Governo rejeitou isso. As obras continuam a ser feitas sem reforço sísmico nos edifícios antigos para poupar dinheiro. Nitidamente estimular a reabilitação urbana, mesmo que seja mal feita e seja só um peeling aos edifícios, pondo em risco a vida das pessoas. Isto é feito deliberadamente. Os governos sabem o que estão a fazer e sabem que vai morrer gente por causa disso. E fazem-no.

A lei 32/2012 diz muito claramente que numa obra de reabilitação urbana não é preciso respeitar a legislação posterior à construção original. Para qualquer edifício cuja construção original seja anterior a 1958, como a legislação tinha grau zero de exigência de proteção sísmica, pode continuar a ser zero.

Os edifícios têm muito pouca resistência, são reabilitados, ficam bonitos, põe-se lá gente, sabendo nós que não têm condições mínimas de segurança. Os governos sabem e fazem isso deliberadamente. Grande parte destes edifícios são baralhos de cartas. Não precisam de um sismo como o de 1755 para caírem.
Quando faz estes alertas qual a resposta que recebe do poder político?

Normalmente, quando falam connosco, dão-nos razão e dizem para continuarmos o trabalho. Cinco minutos depois atiram tudo o que dissemos e a documentação para o caixote do lixo porque começam a pensar quantos votos é que isto lhes dá. Como não traz votos, esquecem. 

O tema do risco sísmico não traz votos?

Pelo menos até agora não tem trazido. Talvez venha a mudar no futuro, mas por enquanto ainda não. Se traz são poucos, não os suficientes para convencer algum político a gastar tempo ou recursos do país com esta matéria. 

Repare, isto foi ostensivo no Governo do doutor Pedro Passos Coelho mas com o engenheiro Sócrates também transmitidos a informação toda e a resposta foi rigorosamente a mesma. Não há qualquer diferença.
Aliás passaram já imensos governos desde que começaram a alertar para estas situações.

Sim. Começámos ainda com o engenheiro Guterres. Enviámos a metade dos membros do Governo e a ele uma série de documentação. Quando saiu do Governo, o engenheiro Guterres veio dar aulas para o Técnico. Pedimos para falar com ele. 

Mostrámos-lhe a publicação mais importante que lhe tínhamos enviado e ele nunca a tinha visto. Não posso jurar, mas tenho quase a certeza que ele estava a ser sincero. Ou seja, a informação foi-lhe enviada e nem sequer passou do gabinete.

Foi enviada a todos os grupos parlamentares e aos líderes de todos os partidos. Creio que poucos terão lido, se é que algum leu, alguma das coisas que lhes enviámos por causa da tal questão: não dá votos e portanto põe-se ali na prateleira. 

No entanto, ficámos com esperança que as coisas mudassem em 2003 e 2004. Falámos com todos os grupos parlamentares e depois com a Comissão de Obras Públicas. A deputada Judite Jorge do PSD Açores interessou-se muito por isto e, em conjunto com outros deputados do PSD e do CDS-PP, fez um projeto de resolução em que recomendavam ao Governo políticas para alterar isto. 

Esse projeto entrou na Assembleia da República em 2004 mas nunca foi votado porque a legislatura acabou. Na legislatura seguinte aconteceu algo muito engraçado. Num encontro de ciência e educação no Parlamento, fiquei numa mesa com o deputado Miguel Tiago do PCP. Ele é geólogo e, portanto, sabe que isto existe e que eu não estava a inventar nada. 

Interessou-se pelo problema e fez um novo projeto resolução. Achei imensa piada porque só mudou o preâmbulo em relação ao do PSD. Isto não é uma crítica, é um elogio. O problema não é partidário, não é de esquerda ou de direita. Os sismos não querem saber disso para nada. Até deveria ser relativamente fácil haver consenso político entre todos os quadrantes.

Esse novo projeto demorou dois anos a ser discutido. Entrou na Assembleia em 2006, foi votado a 3 de abril de 2008 e todos votaram a favor, exceto o PS. O projeto foi chumbado. 

Continuámos a “chatear” a Assembleia. Em 2010, com o PS já em minoria, foi aprovado por unanimidade um projeto de resolução em que se recomendavam várias coisas, entre elas que o reforço sísmico passasse a ser obrigatório na reabilitação urbana. Foi aprovado por unanimidade e a sua não aplicação foi feita pelos mesmo que a aprovaram. 

Esta questão já foi apresentada ao atual Governo?

Não. Eu andei nesta saga de falar com os políticos 14 anos, sem nunca ter conseguido resultados palpáveis, a não ser uma resolução aprovada no Parlamento mas que nunca quiseram aplicar. Eu não consigo levar a Assembleia da República muito a sério por causa disto: aprovam uma coisa e depois toda a gente faz o contrário. 

Em 2013, achei que devia retirar-me. Saí e deixei de ter aquela atitude militante para ter uma atitude passiva. Faço o meu trabalho, ensino os alunos, participo nos projetos de investigação, falo publicamente quando me convidam. Mas já não vou enviar uma carta ao primeiro-ministro ou ao Presidente da República. Acho que o dinheiro do selo é um desperdício. Pelo que se passou no passado, ninguém liga.

Os Açores são diferentes nesta questão da resistência sísmica?

São bastante diferentes. Eles têm lá sismos periodicamente. A sensibilidade da população é diferente e a própria atitude do Governo é diferente. Há uma coisa que eu não conhecia: o crédito a habitação nos Açores, quando é para reabilitação, está condicionado ao reforço sísmico. 

Aqui ninguém se lembra sequer de uma coisa dessas. Mas estar a emprestar dinheiro para fazer a reabilitação de uma construção que não tem resistência, sabendo que ela depois pode cair facilmente, até é arriscado do ponto de vista económico. Pode vir um sismo e destrói o investimento todo. 

Fazer com que um edifício esteja mais preparado tem um custo assim tão elevado?

Depende. No caso da construção nova, o custo é tão irrelevante que ninguém dá por ele. Podemos estar a falar de dois ou três por cento no custo de construção. Só que, por exemplo em Lisboa, só o custo do terreno é mais elevado do que o custo de construção. 

Na construção existente já não é assim. Os materiais são os que lá estão, não são escolhidos. Muitas vezes nesses edifícios, se tiverem pouca resistência sísmica, pode não ser tão irrisório quanto isso. 

Com base nos custos da Parque Escolar, da reconstrução dos Açores depois do sismo de 1998 e em algumas obras feitas em Lisboa, os valores na maioria dos casos estão abaixo dos 200 euros por metro quadrado. Em mais de metade estão abaixo dos 100 euros. 

E estamos a proteger as casas, os conteúdos e a vida das pessoas. Estamos a falar de gastar dez, 12 ou 15 por cento do bem que estamos a proteger para ter resistência sísmica. 

As pessoas quando vão viver para uma casa poderiam ter que pensar: será que, se me pedirem dez ou 12 por cento do valor para eu estar numa casa com resistência sísmica, vale ou não vale a pena pagar? É evidente que se não souberem que pode voltar a haver sismos fortes aqui não vão pagar. Mas se souberem o risco que correm é evidente que vão e seria um disparate não o fazer.

As pessoas têm teoricamente a sensação de que um sismo pode ocorrer. Mas na prática é um risco que não personalizam?

O cidadão comum não vê praticamente ninguém com responsabilidade – um Presidente da República, um primeiro-ministro – minimamente preocupado com o assunto. Portanto, as pessoas até podem acreditar em mim. Mas, para eles, inconscientemente, o problema não existe porque não veem ninguém preocupado com isto. As pessoas racionalmente dizem uma coisa mas depois vão fazer o contrário.

Isto agrava imenso a situação e não é consciente. Vou dar-lhe um exemplo. Num debate sobre reabilitação urbana em Lisboa em 2004, perguntei à vereadora como é que o problema do risco sísmico estava a ser tido em conta. A resposta foi: “A legislação técnica está a ser aplicada e as obras são acompanhadas pelos técnicos municipais. 

Como a legislação técnica exige um grau de resistência igual a zero nos edifícios construídos antes de 1958, significa que estamos a fazer aquilo mal feito. Sabemos que os edifícios não têm resistência e é tudo legal. Mas quem ouve aquela resposta fica descansado. Ela não mentiu mas omitiu que a legislação técnica tem um grau de exigência nulo.

Isto transmite uma falsa sensação de segurança. Falsa porque não é verdadeira, mas as pessoas pensam que é. Estas pessoas não vão tomar qualquer precaução se comprarem uma casa ou mesmo em casa porque o poder político lhes mente, os engana e lhes diz que está tudo bem.

O que é que os cidadãos podem fazer de concreto em casa para estarem mais protegidos?

O mais importante pode ser uma vez na vida: quando a pessoa compra casa deve tentar obter garantias e o conselho de alguém que esteja por dentro do assunto. Depois quando a pessoa já está na sua casa não consegue modificar isso.

Agora os edifícios, mesmo que bem feitos, são calculados para não colapsar mas para vibrar. Pode haver armários que caiam em cima das pessoas, portas que abram, pratos e vidros a cair. Há todo um conjunto de riscos em casa ou no local de trabalho que podem causar danos, ferimentos ou até a morte. Este tipo de situação já se pode fazer alguma coisa para diminuir os riscos.

Qual a importância do projeto KnowRisk nesse sentido?

O KnowRisk é um programa financiado pela União Europeia que tem como objetivo principal difundir informação para os cidadãos sobre estas matérias. Vamos fazer várias coisas, nomeadamente um guia de procedimentos com um conjunto de instruções para ajudar as pessoas a identificar os riscos e algumas medidas simples e baratas para reduzir esses riscos.

Estamos também a fazer um portefólio que vai ter um conjunto de medidas, mais vasto e completo. Para algumas medidas é preciso algum conhecimento profissional.

Outra coisa que temos feito é alguma intervenção junto da comunicação social para alertar as pessoas para isto. Pela parte que me toca, já desisti de alertar os políticos. 

Depois de 14 anos a falar sem resultados, se algum dia acontecer alguma coisa fico muito satisfeito mas não alimento grandes expetativas. Acho que a única coisa que podemos fazer é falar diretamente com as pessoas e ajudá-las a protegerem-se a si próprias.

O KnowRisk vai ao encontro das crianças. É uma forma de chegar aos adultos?

Também é. As escolas são sempre uma preocupação porque é onde estão os nossos filhos e a juventude. A opinião pública é mais sensível à morte de crianças do que de adultos. Ter alguma atenção às escolas é importante. 

Aquilo que me preocupa no projeto é que transmitimos bastante informação mas a poucos alunos. O que eu gostaria era que isto chegasse ao maior número possível de pessoas para que o guia de procedimentos e o portefólio pudesse chegar à mão das pessoas e elas tomassem precauções. 

Mas acho que enquanto as pessoas continuarem, no seu inconsciente, a achar que o problema não existe porque não veem as autoridades minimamente preocupadas com o assunto, tenho receio que a mensagem irá cair em saco roto para muita gente.

Uma das coisas fundamentais que o poder político deveria fazer era dar o exemplo. Preocuparem-se com a resistência sísmica dos ministérios, dos edifícios públicos e essa preocupação não existe. 

Se existir são casos particulares. Por exemplo, a Parque Escolar a partir de certa altura começou a reforçar as escolas. Mas é uma exceção, não era a política do Governo. A Parque Escolar acabou, acabaram-se as obras e a resistência sísmica das escolas já deixou de interessar. Ninguém está minimamente preocupado com isso neste momento. 

Ou seja, nem nos edifícios públicos há preocupação com o risco sísmico?

Acho que a escola era a primeira coisa a que se deveria dar atenção, bem como os hospitais. Os edifícios do Governo também são importantes porque o país depois de um sismo vai precisar de recuperar e de ter uma administração pública a funcionar. O Estado nem consigo próprio se preocupa quanto mais com os cidadãos.

Há umas pequenas exceções. A Assembleia da República foi reforçada porque foi dito aos deputados que a parede da sala das sessões lhes caía em cima e eles aprovaram de urgência o reforço. Mas depois esqueceram-se que há mais dez milhões de portugueses cá fora e já ninguém quis saber desses para nada.

É uma contradição?

Não, não é uma contradição. É uma atitude egoísta. É primeiro tratamos da nossa pele com o dinheiro dos outros. O povo português que se dane. Quando houver um sismo diz-se que é um fenómeno da natureza. O que é um fenómeno da natureza é o sismo propriamente dito. O colapso dos edifícios não é um fenómeno natural. É preciso que as pessoas se lembrem disso.

Mas quando isso acontecer, a única coisa que se vai querer falar é a solidariedade com as vítimas e vai-se dizer que não é altura de caça às bruxas que é para ver se as responsabilidades nunca são apuradas. Já se sabe como é neste país, a culpa morre sempre solteira. Mas os sismos não matam. O que mata são as construções mal feitas.
Quer dizer que vai acontecer como na época de Marquês de Pombal: enterrem-se os mortos e trate-se dos vivos?

Genericamente, é isto que tem de acontecer. O problema são as proporções. Mesmo com limitações económicas, se tomássemos as devidas precauções se calhar tínhamos num sismo forte dez vezes menos estragos e vítimas. Se tivermos aqui uma catástrofe de grandes dimensões não há Proteção Civil nenhuma no mundo para isso. Estamos tramados, ponto final.

É preciso no fundo evitar uma catástrofe de grandes dimensões. Para isso, é preciso trabalhar com antecedência. Há quase 20 anos que andamos a dizer isto sem resultados absolutamente nenhuns. É um bocado frustrante. O maior contributo que dei na minha para evitar as consequências de futuros sismos foram os alunos que formei na Universidade. Podíamos fazer muito mais do que isso mas tudo depende de decisões políticas.

Na reabilitação urbana, se quisermos melhorar o que se faz precisamos de ter legislação que estabeleça quais as obras em que tem de ser aplicada ou não. Não podemos dizer à pessoa que tem uma infiltração em casa para reforçar o prédio inteiro. Era pior a emenda do que o soneto, aí é que ninguém fazia reforço sísmico. 

Temos de legislar sobre quais são os objetivos desse reforço sísmico. Deveríamos ter legislação para proteger o património não vá alguém lembrar-se de mandar os Jerónimos abaixo por não ter sido construído para resistir a sismos. Os monumentos são parte da nossa identidade cultural, hoje em dia a identidade das nações joga-se muito mais no plano da cultura e economia do que no plano militar.

A preservação do património é uma coisa muito importante. Nas construções com grande valor patrimonial tem que se tentar compatibilizar segurança e preservação dos edifícios. Precisamos de umas recomendações técnicas para as obras de reabilitação porque o que existe é para obras novas. Estas recomendações são uma tarefa técnica mas mandá-las elaborar é uma decisão política porque elas não aparecem do ar. Sem as decisões políticas de implementar tudo isto, nada se faz.

Deveria haver mais simulações de sismos?

Acho que é importante que periodicamente haja esses exercícios. Servem para lembrar às pessoas que o problema existe e o que devem fazer quando ele ocorrer. Mas em Portugal têm sido utilizados para esconder o problema principal. 

Ou seja, quando se debate os sismos vai se falar da Proteção Civil. A Proteção Civil só age depois do sismo. Já é tarde demais porque as pessoas morrem principalmente durante o sismo. Quando a Proteção Civil começa a atuar, o pior já aconteceu. 

Se queremos reduzir as consequências dos sismos, o mais importante é a prevenção. Só se fala atualmente do que se faz depois e não do que se faz antes porque é muito mais incómodo do ponto de vista político. O principal não está a ser feito.

Temos capacidade para responder caso haja um grande sismo?

Tudo depende do que se fizer antes. No estado atual e com um sismo forte, não há proteção civil nenhuma no mundo que nos valha. A dimensão da catástrofe é tal que a diferença entre meios disponíveis e necessários é abissal e não há hipótese. 

Mesmo tomando precauções, nunca vamos conseguir reforçar os edifícios todos e evitar que haja feridos dentro de casa. O risco zero não existe, mesmo coisas bem-feitas podem colapsar porque houve um azar muito grande. Vamos precisar sempre da Proteção Civil. Agora, para que os meios sejam compatíveis com a realidade, temos de tomar muitas medidas preventivas que não tomamos.

Esteve em Itália, onde ocorreram grandes sismos recentemente. Nem assim Portugal aprendeu?

Acho que não. Nós falamos, as pessoas ouvem, mas volta tudo ao mesmo. Ainda não vi nada de concreto mudar. Temos sempre esperança, a esperança é a última a morrer. Mas eu no início deste processo tinha mais esperança do que agora. Só quando vir alguma coisa a acontecer mesmo é que eu acredito.

Portugal continua a pensar que só acontece aos outros?

Exatamente. O problema é que temos a certeza que isso não é verdade. Ignoramos a realidade, um dia vamos ter de pagar as consequências. A sorte não vai durar para sempre. Os sismos têm sido noutros sítios. As últimas grandes catástrofes têm estado afastadas daqui. Mas temos a certeza absoluta que a sorte não dura para sempre.

Fonte integral em: RTP

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