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Science4You - Pago 2500 euros por dia a um mentor

Miguel Pina Martins, de 31 anos, é o CEO da Science4You, a maior produtora de brinquedos em Portugal. Gere um grupo que facturou 16 milhões de euros no ano passado e em 2015 contratou um mentor inglês, John Harper, antigo presidente da Hasbro Europe, uma das maiores empresas mundiais deste sector.

Science4You é a maior produtora de brinquedos em Portugal e a terceira maior da Península Ibérica. Quantos brinquedos produz por ano?

No máximo conseguimos produzir 20 mil brinquedos por dia, em altura de grande pico. Durante o ano andamos à volta dos oito ou nove mil. Em 2016 vendemos cerca de 2,5 milhões de brinquedos e facturámos 16 milhões de euros.

Foto: Youtube
A empresa é 100% portuguesa, mas contratou um mentor chamado John Harper, antigo CEO da Hasbro Europe, uma das maiores empresas de brinquedos do mundo. Porquê?
Na altura foi um desafio que me foi lançado pela nossa capital de risco [a estrutura acionista é composta por Miguel Pina Martins, Millenium BCP, Portugal Ventures e outros acionistas fundadores] e vou ser muito honesto: achei que era um bocadinho ‘non sense’. ‘Para que serve um mentor, se isto até está a correr bem’, questionei-me. Mas desafiaram-me a fazer isso e, caso conseguissemos encontrar um especialista para o ‘board’ teríamos uma tranche de financiamento. Encontrei cinco candidatos e tive sorte porque selecionámos o John, essencial na estratégia internacional da empresa. Foi uma das coisas mais importantes que fizemos desde a fundação.

Foi fácil encontrar este mentor?

Este processo demorou seis meses. Muita pesquisa desde o LinkedIn até às revistas de brinquedos.

Como foi o primeiro contato?

Enviei uma mensagem ao John Harper através do LinkedIn mas ele não quis saber. À segunda mensagem, respondeu: ‘Podemos falar, mas vou para a Austrália daqui a três dias e só volto daqui a um mês e meio’. Eu respondi-lhe: ‘Vou já ter consigo a Londres. Amanhã a esta hora estarei aí’ [O mentor vive perto de Heathrow].

E como correu a conversa?

Muito bem. Ele gostou do conceito. Estava semi reformado. Ainda ia fazendo algumas coisas, mas já não era CEO da Hasbro. E tinha um contrato com a mulher: aos 60 anos iria pré-reformar-se e trabalhar apenas 90 dias por ano. O resto do tempo era para se dedicar às grandes viagens. Nós trabalhamos com ele entre 20 e 25 dias por ano. Vem cá a Lisboa ou eu desloco-me a Londres.

Foi difícil convencê-lo?

Não, porque tivemos muita sorte. Gostou do projeto e está numa fase em que escolhe aquilo que quer fazer. Ajuda muito no marketing, a fazer o ‘branding’ e nas campanhas. Nunca a fazer brinquedos no seu todo.

Quanto lhe paga por dia?

Pago cerca de 2500 euros por dia. No dia em que trabalha recebe, se não trabalhar não recebe. Quando vem cá dois dias fica caro, mas tem valido a pena. Tem sido um dos melhores investimentos desde sempre.

Como nasceu a Science4You?

Foi o meu projeto de final de curso. Em 2008 estava a estudar no ISCTE, a tirar uma licenciatura em Finanças, e o Instituto tinha vontade de montar planos de negócio que viessem da Faculdade de Ciências. O professor tinha um método extremamente inovador de distribuição das ideias, que passava por ter um chapelinho e os alunos colocavam no interior as ideias como rifas. Na altura tirei uma rifa que dizia ‘kits’ de física. O meu grupo pensou: ‘Isto é uma desgraça, como é que nós vamos fazer isto? Fomos ter com o professor e pedimos outra coisa’. Ele respondeu: ‘Ou vocês acabam este projeto ou não vos dou nota na cadeira’. Perante isto achámos que era melhor fazer os kits de física. Fomos à Faculdade de Ciências e pensámos: ‘Podemos fazer qualquer coisa divertida e com mais mercado’. E foi assim que surgiu a ideia dos brinquedos científicos. Ainda acabei o curso de Finanças, mestrado em Gestão e trabalhei quatro meses na banca de investimento. A sala de mercados não era vida para mim. Queria fazer mais alguma coisa.

O que fez a seguir?

Procurei investimento para a Science4You e deparei-me com a Portugal Ventures, que investiu 50 mil euros. Eu investi 1125 euros. Estávamos em janeiro de 2008 e o projeto de final de curso chamava-se Science4All, mas depois não nos deixaram registar este nome e acabou por ficar Science4You. Na altura, o empreendedorismo não era palavra que estivesse no nosso léxico corrente e fazia pouco sentido. Os meus colegas seguiram outros cursos nas consultoras, banca, etc.

Eles estão arrependidos de não terem continuado consigo?

Não diria que estão arrependidos. Foi a decisão que tomaram e cada um fez o seu caminho. No meu caso foi a melhor decisão que tomei na vida.

Então começou a empresa sozinho?

Um dos primeiros clientes foi a Fnac do Corte Inglés. Eu fui recepcionista, telefonista, diretor comercial, diretor financeiro…. A coisa rolou e devagarinho contratei pessoas.


Começou logo com apoio dos capitais de risco?

Sim, senão tinha sido impossível com os meus 1125 euros.

O que comprou com os 50 mil euros da Portugal Ventures?

Tinha o tempo a contar e todos os dias gastava dinheiro. Precisava de ter ‘stock’ para vender e ganhar dinheiro.

Qual foi o primeiro brinquedo que criou?

Foi a energia eólica. Hoje em dia 80% do que exportamos compramos em Portugal.

O que disseram os seus pais?

Como era novo e sempre tinha tido boas notas eles não se preocuparam muito. Estava a tirar o mestrado e a tentar abrir esta empresa. Tinha 21 anos, não era propriamente um jovem de 30 anos em casa, sem fazer nada, e a jogar playstation.

Pensou alguma vez no regresso à banca de investimento?

Não, isso não queria. Talvez consultoria ou qualquer coisa desse género.

Como se deu a internacionalização da empresa?

Em 2009 fomos para Espanha e em 2010 começámos a ser líderes dos brinquedos científicos. Sempre tivemos ADN de exportação e Espanha era o destino mais fácil para começar.

Precisou de ir vender brinquedos de porta a porta?

De porta a porta não, se estivermos a falar de casas de pessoas. Ia às papelarias e às lojinhas de brinquedos e batia à porta com o católogo.

E já levava os brinquedos numa carrinha?

Inicialmente sim. Ia de carro e fazia-me à estrada. A primeira entrega foi em Aveiro. Lisboa foi o nosso maior mercado e ainda hoje o é. Estamos a falar de um bem educativo, que faz bem às crianças. Temos de ter um grande equilíbrio entre a educação e a diversão. A criança deve gostar mas os pais também. Nós tentámos fazer experiências de química mas divertidas. A chave do sucesso é conseguir ter toda a gente feliz em casa.

Como caracteriza os diversos mercados para onde exportam?

O mercado norte-americano é mais ‘fun’. Estão mais focados na diversão do que na educação. A Ásia é muito mais educativa. A Europa é quase toda semelhante.

Qual é o vosso maior mercado fora da UE?

É a China. Em 2016 foram cerca de 100 mil euros para a China. Na Europa temos muito mais força, mas é normal porque temos aqui a fábrica.

Onde tem escritórios?

Em Espanha e em Londres. Em Madrid temos lojas próprias, no Reino Unido vendemos a retalho e registámos um crescimento de 300%. Não nos podemos queixar muito.

Onde é que gostava de estar?

Temos três países onde gostávamos de estar: México, Coreia do Sul e Japão. A faturação de 2017 tem de passar claramente os 20 milhões.

Viaja em económica ou executiva?

Sempre em económica. Só viajei em executiva quando me ofereceram. Uma viagem de Londres para Lisboa em executiva custa 1200 euros. Em económica custa 100 ou 150 euros, acho que é um luxo. Um desperdício de dinheiro. Talvez um dia quando for muito rico.

O criativo da empresa é o Miguel?

Sou um dos. Infelizmente o dia não dá para esticar. São 24 horas e eu tenho de dormir mais ou menos sete.

Em que ponto está a construção da nova fábrica?

Esperamos que seja no primeiro semestre e preferencialmente dentro do MARL. A fábrica atual tem oito mil metros quadrados e chega a ter 500 funcionários no pico. A próxima fábrica tem de ter o dobro para estarmos tranquilos, mas depende do crescimento.

Que brinquedo ainda lhe falta criar?

Ainda faltam muitos. Acho que os robôs vão ser uma tendência dos próximos anos.

Como é o seu dia a dia?

Entro aqui por volta das 7h30 da manhã e saio por volta das oito da noite. Tenho dois filhos bebés, dou-lhe o jantar e deito-os na cama. De manhã visto-os e dou-lhes o pequeno-almoço, depois a mãe leva-os à escola.

Leva trabalho para casa?

Sim. O trabalho vai sempre para onde eu for. Se me ligarem às nove da noite eu atendo. Gosto de escrever algumas coisas sobre liderança e às vezes tiro uma hora para escrever, muitas vezes para mim próprio.

Considera-se um CEO bem pago?

A empresa nunca distribuiu dividendos, foi sempre para reinvestir. Vivo num T2, não tenho nenhum Porsche nem BMW. Eu vivo do salário, não de rendimentos de dividendos. Os próximos anos vão ser sempre assim.

Qual é o seu salário?

Na empresa existe um comissão de remunerações que define o meu salário. O meu salário são 1700 euros limpos, não acho que seja assim tanto acima da média. Consigo poupar alguma coisa, mas não faço investimentos financeiros. Hoje em dia o meu ‘budget’ é para os filhos. É um problema que temos na nossa sociedade, porque é caro ter filhos. Na realidade quem tem filhos é que está a garantir a vida dos que não têm. Alguém tem de pagar a segurança social.

Podemos ter a Science 4You na Bolsa?

Eu acho que é uma hipótese. Não amanhã, nem daqui a um ano ou dois. Gostava que fosse via IPO mas ainda falta muito tempo.

Como CEO, o que espera para o país?

Crescimento, estabilidade e acima de tudo que se criem condições boas para Portugal receber investimento. Sem isso não vamos a lado nenhum. Porque temos empresas descapitalizadas, muita dívida e sem crescimento não vamos ter investimento. Tudo o que o Governo e os empresários conseguirem fazer nesse sentido é sempre positivo.

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