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Jogo Baleia Azul, já se sabe a verdadeira razão

Especialistas alertam os pais para estarem atentos aos comportamentos dos filhos e para dialogarem, mas sem proibir o acesso à Internet.
Foi há uma semana que Bárbara Ramos Dias, psicóloga em Oeiras, recebeu o primeiro alerta para o jogo Baleia Azul. Um adolescente ligou-lhe porque não sabia o que havia de fazer. Se não jogasse matar-lhe-iam os pais, disse. A psicóloga descansou-o. Já esta semana, outro jovem contactou-a por causa do mesmo jogo e da mesma ameaça.

A Baleia Azul tem cerca de meia centena de instruções – Tito de Morais, do projecto Miudos Seguros na Net, recusa-se a chamar-lhe “desafios” porque são “coisas terríveis” – que induzem quem adere ao jogo a praticar actos de auto-mutilação. O fim último é o suicídio. Este jogo terá começado na Rússia e já se espalhou pelo mundo, tendo chegado agora a Portugal com o primeiro caso de uma jovem no Algarve que se atirou de um viaduto.
Quem são os jovens que aderem? Para Bárbara Ramos Dias, que trabalha com adolescentes e faz consultas através do skype, são apenas miúdos que “acreditam naquelas ameaças, têm medo que façam mal aos pais e, por isso, fazem tudo o que o jogo manda”.
Margarida Gaspar de Matos, especialista em saúde pública e responsável pelo estudo Health Behaviour in School-Aged Children, da Organização Mundial de Saúde, lembra que faz parte da adolescência querer arriscar e testar os limites, mas também aderirão os jovens mais “desorganizados e com menos perspectivas de futuro”.
Rosário Carmona e Costa, psicóloga especialista em adição à Internet, cyberbullying e psicologia da web, que publicou recentemente o livro iAgora? sobre as dependências das crianças e adolescentes dos ecrãs, é da mesma opinião e lembra as corridas de alta velocidade na ponte Vasco da Gama como um dos comportamentos de risco e de tentativa de testar limites. “Esta é a versão electrónica do experimentar álcool ou drogas pesadas, ou outras coisas em que arriscamos e testamos os limites”, acrescenta Margarida Gaspar de Matos.
“O que me espanta não é como surgiu o jogo, mas como as pessoas que o fizeram são tão conhecedoras do comportamento humano. O jogo parece uma coisa improvável [pedir a alguém que se automutile], mas quem o fez sabe que quem vai jogar entra num clima crescente que o faz não querer parar e continuar a arriscar”, reflecte a especialista. Além disso, o facto de ser online faz parecer que nada daquilo é real e os jovens têm uma “sensação de invulnerabilidade e de que não estão a correr um risco real”.
Bárbara Ramos Dias conta que um dos desafios é ouvir uma música psicadélica e subir a um prédio, ao mais alto possível. “É um jogo de manipulação”, define. E pode também ser de pressão social, avança Gaspar de Matos. Não esquecer que os adolescentes têm necessidade de pertença e de procurar a novidade, acrescenta Carmona e Costa.
A psicóloga que dá consulta no Cadin, em Cascais, lembra que tem havido outros jogos na Internet com propostas semelhantes: sítios onde os adolescentes são convidados a cortarem-se em conjunto, outros onde lhes propõem o choro colectivo, incentivam ao suicídio, ou “quem disser mais mal de si próprio é o melhor”. O jogo Baleia Azul é um “cocktail explosivo”, sobretudo para miúdos que acreditam que são invulneráveis, que o mal só acontece aos outros ou então para aqueles que têm défice de auto-controlo. “É comum os adolescentes pensarem que têm tudo sobre controlo e não têm”, analisa Carmona e Costa.
Mais tempo de família, menos de telemóvel
No livro iAgora?, Rosário Carmona e Costa analisa o comportamento dos pais quando os filhos têm um problema de dependência dos ecrãs e conta que, a maior parte das vezes, os pais demitem-se do seu papel por “acharem que não vale a pena intervir porque não são competentes para o fazer”. A psicóloga discorda desta atitude. “Os pais sabem o que é demais, o que é um comportamento que não se aceita. É importante que os filhos saibam que os pais estão a controlar os seus comportamentos. Os miúdos esperam isso dos pais”, defende.
Sentados à mesa, pais e filhos estão, cada um, nos seus telemóveis. O filho adolescente pode estar a ver a próxima proposta que o jogo Baleia Azul lhe faz que os pais não saberão pois também eles estão embrenhados no mundo virtual. Aos pais cabe estar atentos e “dotar os filhos de competências e regras”, aponta a psicóloga. “Os pais têm de preparar os filhos para saberem identificar um comportamento de risco, para saberem dizer ‘não’ e, se já estiverem dentro do jogo, para saberem pedir ajuda”, enumera Carmona e Costa.
Também Gaspar de Matos recomenda que não se ralhe nem se proíba o acesso às novas tecnologias, “isso é privá-los de estarem com os seus pares”. Em vez disso, há que estar atento, conversar – “conheces alguém? Como é que é esse jogo? Não achas que é um disparate?”. “É preciso que as famílias mostrem cumplicidade, é preciso uma grande serenidade por parte dos pais, mas sem proibir [porque se o fizerem] eles vão tentar”, alerta a especialista. “Eles fazem-no às escondidas, o jovem tende a esconder-se. Por isso, não vale a pena fazer um braço de ferro”, acrescenta.
A psicóloga Bárbara Ramos Dias pede aos pais para, além de dialogarem com os filhos, estarem atentos a outros sinais: ver constantemente o corpo dos jovens para ver se há sinais de corte, estranhar se andarem muito vestidos, observar se se isolam, se o comportamento mudou, se estão apáticos. “O melhor é falar sobre o jogo e dizer-lhe que é mentira, que alguém o criou para lhes fazer mal e transmitir-lhes confiança”.
No Brasil, conta Tito de Morais, foi criado o jogo Baleia Rosa com 50 desafios pela positiva. As famílias podem pegar nesse jogo e fazê-lo, propõe. Assim, em vez de a primeira indicação ser tatuar com uma faca na sua própria pele uma sigla, como pede a Baleia Azul, propõe-se escrever com uma caneta na "pele de alguém o quanto você a ama".
Os jovens precisam de ter um sentido para a vida, aponta Gaspar de Matos, algo que descubram que os faça ter satisfação. Precisam de fazer outras coisas que não seja estar só à frente de um ecrã, aconselha Carmona e Costa. “É preciso promover tempos de família que protejam os jovens de comportamentos de risco”, conclui.

Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio

SOS – Serviço Nacional de Socorro
112

SOS Voz Amiga
(entre as 16 e as 24h00)
21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60

SOS Telefone Amigo
239 72 10 10

Telefone da Amizade
22 832 35 35

Escutar - Voz de Apoio - Gaia
 22 550 60 70

SOS Estudante
(20h00 à 1h00)
808 200 204

Vozes Amigas de Esperança
(20h00 às 23h00)
22 208 07 07


Fonte e Foto: Público

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