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VERGONHA - Tapada de Mafra arranca sobreiros centenários sem autorização

A intervenção terá provocado a morte de crias de açor, espécie de ave protegida, devido à perturbação causada por maquinaria pesada junto ao ninho que deixou de ter actividade.

Alegando a necessidade de proceder à abertura, alargamento e limpeza de caminhos no interior da Tapada Nacional de Mafra (TNM), para prevenção de fogos florestais, foram arrancados, na passada terça-feira, cinco sobreiros com mais de uma centena de anos, dois em bom estado vegetativo e três que se apresentavam decrépitos mas com hipótese de recuperação. A ordem foi dada pela directora do espaço, que nega terem sido cinco as árvores abatidas. O certo é que a GNR interveio e identificou a dirigente.

Foto: Tapada Nacional de Mafra
A organização ambientalista Quercus denunciou a intervenção efectuada, frisando que o derrube das cinco árvores não teve “a prévia e obrigatória” autorização do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF). Esta entidade está representada na Cooperativa de Interesse Público de Responsabilidade Limitada criada em Setembro de 1998 para gerir a TNM.

Domingos Patacho, coordenador do grupo de trabalho de florestas da Quercus, referiu ao PÚBLICO que o arranque das árvores centenárias teve outra consequência “preocupante”: como a intervenção “não foi planeada”, quando se procedeu ao corte de um dos sobreiros, junto a um ninho de açor, espécie de ave protegida, o casal enjeitou as jovens crias devido à perturbação criada pela actividade da maquinaria pesada. Fonte ligada à TNM referiu ao PÚBLICO que o ninho “deixou de ter actividade e quase de certeza que as crias morreram”.

O arranque das árvores, adianta a Quercus, “foi ordenado” pela presidente da direcção da Tapada de Mafra, Paula Cristina Simões. No entanto, a visada refutou ao PÚBLICO o teor das acusações, garantindo não terem sido arrancados os cinco sobreiros referidos pelos ambientalistas.

A directora da TNM frisou que a intervenção se limitou a alargar um caminho e que “o homem que conduziu a máquina pesada apenas deitou abaixo um tronco velho de um sobreiro que estava seco”. Mas também foram cortados “pernadas de árvores de um lado e do outro do caminho”, acrescentou.

Paula Simões insurgiu-se contra as críticas que lhe foram endereçadas pela Quercus, alegando que a limpeza que está a decorrer pretende criar condições para uma melhor prevenção dos incêndios -“coisa que ninguém fez desde o último incêndio” de 2003 e que “destruiu cerca de 80% do coberto florestal da tapada de Mafra” - antevendo um ano crítico em termos de fogos. “Tudo o que é matas nacionais carece de intervenção”, criticou.

Referindo-se ao impacto que as acções desencadeadas terão provocado no ninho de açor, Paula Simões alega que a máquina interveio numa árvore “bastante afastada do ninho”, não adiantando mais pormenores sobre a eventual morte das crias.

Versão diferente apresenta fonte contactada pelo PÚBLICO, que garante que cinco sobreiros “com mais de 100 anos” foram arrancados para alargar um caminho “sem que o ICNF se pronunciasse ou autorizasse o seu arranque” apesar deste organismo fazer parte da direcção que gere a Tapada de Mafra. Dois dos exemplares estavam verdes e três apresentavam sinais de decrepitude, mas poderiam recuperar.

Segundo a denúncia chegada ao PÚBLICO, a directora da tapada “deu ordens aos sapadores florestais para traçar os sobreiros (cortar) guardar a lenha e esconder as raízes” logo na manhã seguinte.

Entretanto, a Quercus é alertada para o que se estava a passar e denuncia a ocorrência ao Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA). Às 9h de quarta-feira, dois elementos da GNR entraram nas instalações da tapada, “fotografaram os sobreiros arrancados e identificaram Paula Simões que alegou estarem os sobreiros quase a morrer”, descreveu a mesma fonte.

Na sequência de um pedido de esclarecimento formulado pelo PÚBLICO junto do ministro da Agricultura, Capoulas Santos, a porta-voz do ministério referiu que só teve conhecimento de “um hipotético abate de sobreiros” através de um comunicado da Quercus, adiantando ter solicitado informações à direcção da cooperativa que gere a Tapada de Mafra, sem mais adiantar.

Entretanto o PÚBLICO continua a aguardar pelas informações que solicitou ao SEPNA
Uma lista com 14 páginas repletas de queixas sobre Paula Simões

A presidente da direcção da régie-cooperativa, Paula Simões, que gere a Tapada de Mafra, mantém, desde que assumiu o cargo, há cerca de um ano, um permanente contencioso laboral com os 16 funcionários que ali trabalham. Com efeito, no decorrer de uma reunião entre os representantes sindicais e o ministro da Agricultura e os secretários de Estado da Agricultura e das Florestas, realizada em Fevereiro de 2016, os representantes da Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais, acusaram Paula Simões de ter “degradado as relações e condições de trabalho” na Tapada de Mafra.

Os representantes sindicais pediram aos governantes que interviessem no sentido de pôr cobro ao inaceitável comportamento da directora. O Secretário de Estado das Florestas comunicou, então, que estavam a ser “tomadas medidas para que a presente situação seja ultrapassada e os problemas relatados, resolvidos” descreve o comunicado sindical a que o PÚBLICO teve acesso.

Decorrido mais de um ano “ o relacionamento, entre as partes, piorou” garantiu ao PÚBLICO, Rafael Louro, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais. A dimensão do conflito já forçou o sindicato a solicitar através de ofício “com carácter de urgência” uma reunião com o ministro da Agricultura, Capoulas Santos. Inclusive, fizeram chegar ao gabinete do ministro e ao seu email um “rol de queixas” que preenche 14 folhas sobre a relação que Paula Simões mantém com os funcionários da tapada. “ Temos provas de lhe ter sido entregue o nosso comunicado no dia 2 de Maio” garante o sindicalista, referindo que “ a perseguição e a humilhação dos trabalhadores é regra e o abuso de poder é recorrente”.

Instado pelo PÚBLICO a comentar os conflitos patentes entre Paula Simões e os funcionários, a porta-voz da tutela, garante que “o Ministério ignora a que conflito se refere na questão” colocada.

Rafael Louro diz ser “no mínimo estranho” que o ministro responda desta forma sobre uma questão sobre a qual “está bem informado”.

Paula Cristina Cabaço Simões é desde o início de 2016, a nova presidente da direcção da Tapada Nacional de Mafra. É jurista e já trabalhou na Federação Nacional de Caçadores (Fencaça). Em 1997, era Capoulas Santos secretário de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, foi nomeada para o seu gabinete, uma colaboração que se tem mantido desde então. 

Fonte: Público

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