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Carta de um bombeiro que esteve nas operações levanta perguntas e mete o dedo na ferida

O Tuga.press recebeu um documento enviado por um bombeiro que esteve na operação de Pedrógão Grande.

Neste documento, são colocadas questões e feitas afirmações que de um modo geral colocam em causa várias coisas que aconteceram e levantam problemas até agora não levantados.

Foto: Notícias ao Minuto
Este documento foi enviado para as seguintes entidades:

– Presidência da República <belem@presidencia.pt>
– Procuradoria Geral da República <correiopgr@pgr.pt>
– Primeiro Ministro <gabinete.pm@pm.gov.pt>
– Ministério da Administração Interna <gabinete.ministro@mai.gov.pt>
– Estado-Maior-General das Forças Armadas <emgfa_rp@emgfa.pt>
– Comando Geral da Guarda Nacional Republicana <gnr@gnr.pt>
– Direcção Nacional da Polícia Judiciária <direccao.lpc@pj.pt>
– Autoridade Nacional de Protecção Civil – CNOS <cnos@prociv.pt>
– Liga dos Bombeiros Portugueses <infor@lbp.pt>


Aqui fica a carta enviada. Leiam até ao fim e tirem as vossas conclusões::

– – –

0. Introdução:

– Sou bombeiro, conheço a zona muito bem e estive na operação
– Tive acesso às comunicações da operação, quando as houve
– Junto aqui uma série de perguntas que não deverão ficar sem resposta para que possamos reflectir e apreender todos com esta ocorrência de proporções inéditas, na qual muitos vizinhos, amigos e conhecidos viram as suas vidas amputadas de forma tão terrível e injusta

1. Ignição:

– Como é possível alguma entidade garantir, em tempo record e com tanta certeza, que o incêndio teve origem numa trovoada seca? E inclusive encontrar a árvore?
– Seriam eles igualmente capazes de definir uma trovoada silenciosa e “undercover”, pois ninguém nos Escalos Fundeiros deu por isso?
– Ou será que as trovoadas secas já viajam de avioneta?

2. Início das operações:

– Como é que o comando não solicitou meios aéreos logo no início da operação? Estavam meios aéreos a abastecer no cabril e a combater um outro incêndio, não poderiam ter sido repartidos logo pelos dois incêndios?
– Porque se demorou tanto tempo a solicitar mais meios, tendo logo de início bens e pessoas em perigo?
– Há certos egos que incham e se julgam mais fortes que tudo. Não teria sido mais útil uma certa dose de humildade nestas decisões iniciais?

3. Escalada:

– Com estas condições climatéricas, de temperatura, humidade e vento, seria de prever que o incêndio iria escalar. Os meios iam chegando, mas como é possível demorarem tanto tempo a serem colocados no terreno?
– Das primeiras entidades a ter meios no local foi a GNR, a qual apenas se encarregou em fazer o corte das estradas que lhe comunicava o comando, impedindo inclusive a circulação de quem queria ajudar. Tive informação de pessoas de várias zonas que queriam passar para trazer informações e/ou levar ajuda a outros pontos e foram barrados. Como é possível isto?
– Como é possível ter visto o dispositivo da GNR parado aqui e ali, em vez de terem tomado a responsabilidade de ajudar no reconhecimento das zonas de perigo para poderem encaminhar as pessoas? Talvez se a GNR tivesse feito o reconhecimento da EN236 não tivessem encaminhado as 47 pessoas para a sua morte… Não haverá aqui uma falta de diligência?

4. Falha nas comunicações:

– Qual é a novidade em relação a isto? O SIRESP nunca funcionou como deve ser e custou milhões. O VHF não chega pois a zona é muito acidentada. Estivemos sem qualquer rede móvel algumas horas. Curiosamente, outras redes móveis foram repostas menos a MEO, que apenas foi reposta dias depois, sendo a mais usada na zona e sobre a sua infraestrutura assenta o SIRESP. Não será esta a causa da sua ineficiência na área?
– Mas as ineficiências nas comunicações não se reduziram aos meios. Eu ouvi indicações contraditórias e assisti a meios esperarem imenso tempo por novas ordens, enquanto outras zonas ardiam e ninguém recebeu as informações, pois era impossível para os cidadãos informar pelas vias 112 ou centrais dos CBs. Onde andavam os meios de reconhecimento? E como garantir aos cidadãos uma capacidade de comunicação de incidentes ininterrupta em estado de emergência?

5. Prioridades:

– Pareceu-me que houve algum desajuste de prioridades, pois durante as primeiras 12 horas houve muito mais meios a atacar as frentes de fogo, do que a proteger pessoas e bens. Muitas aldeias onde morreram a maior parte das pessoas não viram nenhum carro dos bombeiros para as proteger. Como pode isto ser?
– Não terá sido esta a principal causa da maior parte das mortes?
– Será por acaso que foram nestas primeiras 12 horas que ocorreram a grande maioria das vítimas mortais e bens destruídos?

6. Telenovela política:

– Penso ser importante o envolvimento da classe política numa operação como esta, pois há muitos desbloqueios necessários e é bom poder ter uma comunicação directa com os decisores. Mas que tal cortar nos protocolos e nas entrevistas com os media?
– Enquanto se estava a saciar os olhos das câmaras dos meios de comunicação estavam aldeias em perigo, casas e pessoas a arder, e os meios no terreno sem actualização de ordens, ou estarei a imaginar coisas?

7. Pleno:

– Durante o segundo dia pareceu haver um período de controlo da situação. Começa a GNR a evacuar aldeias em perigo. É montado o dispositivo de apoio às vítimas. São finalmente colocados no terreno os meios terrestres do exército, que chegaram na madrugada anterior e nada lhes foi dado para fazer. Chegam mais equipas de vários pontos do país e demoram

menos a ser colocadas em acção… Mas o fogo não dá tréguas…

8. Exaustão, inexperiência e/ou pânico no comando:

– Parecia que a informação, dentro do próprio comando, andava às voltas qual tornado de frases perdidas. Como é óbvio começam a sair informações falsas, bem como a recorrência de ordens desconexas e a dificuldade em controlar a curiosidade dos media… Eu compreendo, se para mim não é fácil aguentar, para quem tem a responsabilidade de toda a operação será inúmeras vezes pior. Mas reservo-me uma questão, não seria necessário haver algumas equipas de gestão de emergências tipo calamidade, com a formação necessária, que pudessem tomar as rédeas da operação quando os meros mortais já não conseguem?
– A pressão dos media continua a aumentar pedindo respostas. Não seria necessário criar um gabinete de comunicação isolando o controlo operacional neste tipo de ocorrências graves?

9. Caos:

– Cai avião português, espanhol, italiano, ou será uma bilha de gás?
– Trovoada na árvore da PJ ou mão criminosa?
– Meios de ajuda estrangeiros a ser recusados?
– Descontrolo claro nas comunicações oficiais?

10. Conclusões:

– A preocupação em escrever estas notas não foi a de apontar dedos, mas sim de não deixar esquecer os factos que pude testemunhar
– Esta operação foi muito difícil e complexa, mas devemos olhar para o que se passou e analisar para podermos aprender com os nossos erros
– Houve imensos pontos de falha nesta operação e desses saíram inúmeras vítimas mortais e bens destruídos
– Para que estas vidas, bem como a do nosso camarada Assa, não tenham sido perdidas em vão…

Fonte: Tuga Press

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