COMANDOS - Vi colegas a morrer sob o calor, desertei

Viu dois colegas morrer sob o calor de Alcochete. Ficou com o corpo em “carne viva”. Não aguentou e desertou do quartel. Chegou a Faro. Acabou “como um preso”, isolado numa caserna da Carregueira.

A noite tinha caído sobre a Carregueira e ajudava à camuflagem. Tiago, aspirante a comando do 127º curso, sabia exactamente como podia fugir do quartel. Eram 22h00 de uma terça-feira, 6 de Setembro de 2016. Como tinha feito a sua recruta para a tropa regular no Regimento de Comandos, conhecia as fragilidades do aquartelamento. Saiu da caserna em Direcção ao portão por onde entravam e saíam as viaturas. Sabia que, poucos metros ao lado, a rede tinha um buraco; foi por lá que saiu, incógnito, sem documentos, sem telemóvel – sem olhar para trás.

Foto: RTP
Percorreu a pé menos de três quilómetros até à estação de comboios do Cacém. Apanhou um comboio para Sete Rios e, por volta da uma da manhã, entrou num autocarro em direção a Faro. Às cinco da manhã, quando chegou a casa, os pais já tinham recebido uma chamada do comandante da companhia. “O capitão disse ao meu pai que estava surpreendido, não percebia porque é que eu tinha feito aquilo, que eu era um bom militar, um dos melhores do curso”. Mas também avisou: se, até às 18h00 do mesmo dia, o recruta não estivesse na porta de armas do regimento de Comandos, ele seria considerado um desertor. E nesse caso as consequências poderia ser sérias.

Dois dias antes da fuga tinha acontecido tudo aquilo que levou o recruta a cometer a loucura de desertar do Regimento de Comandos. Ao final da manhã daquele trágico 4 de Setembro, o termómetro já se aproximava dos 40º no Campo de Tiro de Alcochete, as G3 pareciam fogo nas mãos dos recrutas do 127º curso de Comandos, o pó não tinha tempo para assentar: levanta, deita, rebola, corre, rasteja, volta ao início. Gritos, empurrões, muitas bofetadas. Antes do meio-dia, os primeiros homens começaram a cair, quebrados pela intensidade dos exercícios, esgotados pela sede que lhes secava a boca e lhes paralisava os movimentos. “Já não eram pessoas, era múmias que ali estavam”, conta Tiago ao Observador (nome fictício a pedido do próprio). Na Carregueira, um dia depois, o comandante da companhia haveria de lhes dizer que Hugo Abreu tinha morrido. O recruta, que já não tinha dúvidas, foi então que decidiu: ia desistir ou fugir, escapar à morte. Acabou “como um preso” no quartel dos Comandos, diria mais tarde aos inspectores da Polícia Judiciária Militar no depoimento que prestou no âmbito do processo judicial à morte de dois soldados.

Tiago sonhava fazer parte daquele tropa especial do Exército. “Era o que mais gostava”, confessa ao Observador. Integrou o estágio do curso 125 – umas corridas, algum exercício de tiro, umas noções de topografia. “Nada de especial, era como uma recruta um bocadinho mais exigente”. Mas uma doença inesperada atirou-o para o bloco operatório e para longe do sonho de um dia ter a boina vermelha. Recuperou e, um ano mais tarde, voltou a inscrever-se nos Comandos.

Eram 21h30 do dia 3 de setembro de 2016. O grupo acordou em sobressalto com o rebentamento de granadas e os tiros secos dentro da caserna. “Toca a acordar, já começou o curso de Comandos”, gritavam os instrutores. Em poucos minutos estavam alinhados na traseira de um camião que seguia da serra da Carregueira para o Campo de Tiro de Alcochete. Quando chegou à margem sul do Tejo, Tiago já tinha perdido a noção do tempo: os relógios tinham sido retirados aos recrutas. Fizeram uma pequena marcha e receberam ordem para montar os bivaques. Deitaram-se.

O primeiro choque da recruta

Não sabe ao certo quanto tempo passou mas, ainda antes de o sol nascer, o som de gritos voltou a arrancá-lo do sono. Os instruendos empurraram uma bolachas com algumas tampas de água do cantil, sob as ordens dos instrutores, e seguiram para o exercício de tiro. “Ai, ai, ai, é tão bom o tirinho de combate”, cantava o grupo em uníssono. Estavam nas primeiras horas da manhã, mas as fardas cinzentas já não se separavam dos corpos.

O instrutor mandou-nos formar um “U” e quem não fizesse o exercício como eles queriam levava umas estaladas e uns empurrões”, conta Tiago. Nova ordem para formar uma meia lua no descampado. Mais chapadas, mais empurrões – “aconteceu com um camarada, aconteceu com outro, aconteceu com várias pessoas”, conta o antigo instruendo. A cena repetiu-se até os superiores estarem satisfeitos com o alinhamento. O comportamento para com o outro grupo, o de instruendos que eram graduados, terá sido o mais violento.

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