Estado não vai ter dinheiro para pagar reformas daqui a 15 anos

Para o economista vai haver um grave problema social quando os jovens tiverem de sustentar um exército de população envelhecida.

Para João Duque, daqui a 15 anos vamos assistir a um grave problema social quando os jovens tiverem de sustentar “um exército de população envelhecida” e o Estado não tiver dinheiro para pagar as reformas. No entender do economista vai ser impossível o segmento mais novo da população não se revoltar. O professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) critica ainda a criação de um banco mau para resolver o problema do malparado e mostra-se espantado por essa ideia ter partido do governo. Já em relação ao Novo Banco, defende que o executivo negoceie com Bruxelas de forma a injetar dinheiro na instituição financeira para que possa ser vendido daqui a uns anos sem perder dinheiro; caso contrário, a única solução é a venda ao desbarato.


A economia portuguesa cresceu 1,4% em 2016, superando todas as previsões. O que acha deste crescimento?

Nem vamos falar de previsões porque aquilo que o Partido Socialista previa era bastante superior ao que se verificou. Mas, face às expetativas, a partir de determinada altura acabou por ser um resultado simpático. Às tantas comecei a prever que, face ao andamento da economia, que era tão fraco, muito dificilmente iríamos superar 1% ou 1,2%. Por isso, acabar o ano com 1,4% acaba por ser uma evolução simpática, mas longe de ser boa. No entanto, este crescimento contém aspetos muito negativos. Por exemplo, a diferença entre importações e exportações caiu e foi o consumo que, mais uma vez, veio animar o quarto trimestre. Termos crescimentos com base em consumo e em aumentos de importações não me parece que seja muito saudável.

E já seguimos esse caminho num passado recente…

Sim, e este crescimento tem de ser associado ao défice e à forma como se consegue este défice, com um aumento de impostos indiretos muito significativo que retirou o rendimento líquido que foi dado às famílias. Na prática temos, no mínimo, uma manutenção da carga fiscal e uma baixíssima taxa de poupança das famílias, que está quase ao nível dos valores mais baixos dos últimos 20 anos. Em termos de poupança batemos no fundo no primeiro trimestre de 2016 ao atingir 3,8% e agora estamos nos 4%. Isto também não me parece muito saudável, porque vai-nos obrigar, mais uma vez, a chegar quase ao cúmulo de financiar aumentos de consumo com poupança externa, e isso obriga a economia a endividar-se mais externamente. Ainda se fosse para fazer investimento… agora, endividarmo-nos para consumir e importar é meio caminho andado para o desastre.

Aliás, os últimos dados revelam que as exportações apresentaram o pior desempenho desde 2009.

Há sinais muito preocupantes dentro desta barriga de crescimento de onde aquilo que eu prevejo que venha a nascer é muito mau. Ou se muda completamente este tipo de caminho ou isso vai dar um sério revés.

Mas a curto prazo?

Há um amigo meu que diz que somos tão desorganizados que não conseguimos destruir o país em muito curto espaço de tempo e, por isso, estas coisas demoram um certo tempo. Em boa verdade, quando olhamos para o mercado financeiro, particularmente para o mercado das taxas de juro, e lemos aquilo que o mercado nos diz e a apreciação que faz sobre Portugal, é uma apreciação muito diferente a curto prazo e a longo prazo. E esta diferença espelha-se nas taxas a curto prazo que, para Portugal, ainda são simpáticas, em que a República Portuguesa não tem aparentemente um problema de liquidez a curto prazo, mas os agentes económicos não nos veem com bons olhos porque estamos a afastar-nos daquilo que são as taxas de referência-base da Europa. Outra questão: fala-se agora que Portugal tem potencialmente muita matéria-prima para a construção de baterias para cabos elétricos, mas é uma coisa que nos caiu do céu agora. Temos também o turismo e não sabemos se temos ou não petróleo. Mas devíamos, pelo menos, saber o que temos em matéria de petróleo para potencialmente volatilizar os empréstimos. É como se estivéssemos muito endividados e descobríssemos que, debaixo da casa, temos uma mina de ouro, e aí podemos chegar aos credores e dizer que temos uma solução para resolver o problema. Ou seja, até podemos não explorar, até podemos esperar calmamente, mas temos de saber se há ou não petróleo. Além disso, temos uma população que, do ponto de vista de potenciação do futuro, é um desastre, porque tem desequilíbrios brutais e vai trazer-nos problemas dificílimos de resolver. Como é que, com muito menos gente e sem investimentos aparentes, vamos conseguir aumentar a produtividade para estas pessoas poderem sustentar exércitos de uma população envelhecida, aposentada, a quem têm de pagar as aposentações e os cuidados de saúde, que vão ser cada vez mais pesados na sociedade?

Não vai haver dinheiro para tudo…

Exato. E o que é terrível é pensar que este longo prazo não é assim tão longo: daqui a 15 anos, o número de jovens com 18 anos vai ser metade dos que vão fazer 66. Ou seja, aqueles que vão chegar ao mercado de trabalho vão ser metade dos que vão ser aposentados. Serão os jovens que vão aguentar o esforço. Como é que eles vão viver? Vai ser impossível eles não se revoltarem, mas vão ser a minoria. Estou para ver o que é que vai dar, vai dar um problema social gravíssimo.

Poderemos assistir a uma “guerra civil”?

Vai criar um problema social gravíssimo.

Como se pode explicar a uma pessoa que fez descontos durante toda a sua vida ativa que não vai ter direito à reforma?

As pessoas vão fazer as contas e vão dizer que descontaram xis e, como tal, têm direito a esse valor. As pessoas vão dizer que não têm culpa de o dinheiro ter sido mal gasto. Mas nessa altura também se pode mudar a idade da aposentação para os 70, 80 anos ou até nunca mais. E essas pessoas, que são a maioria dos votantes, como é que vão votar? Vamos ter um potencial problema demográfico que já deu mau resultado quando o governo de Passos Coelho atacou as pensões e os funcionários públicos. Atacou dois universos populacionais muito significativos que se zangaram seriamente com ele e lhe retiraram a confiança. Portanto, no futuro é facílimo termos situações que, face à impossibilidade de distribuir para mantermos os compromissos, para mantermos os pagamentos das dívidas que temos, etc., ou pagamos os juros ou não pagamos os juros e a dívida para servir o interesse das pessoas. Eu olho para aquilo que têm sido os resultados eleitorais e pergunto o que isto vai dar. Vai dar sarilho, foi o que aconteceu com o Brexit.

Uma decisão que criou e continua a criar uma grande instabilidade para a Europa…

O Brexit é o reflexo de uma clivagem na sociedade assente na faixa etária. Os jovens são mais integracionistas do que a classe mais idosa, e esta, receosa e olhando a curto prazo para as suas pensões e para os seus cuidados de saúde, e acenando-se-lhes que lhes podem dar mais se deixarem de pagar aos europeus, principalmente aos do sul da Europa, preferem ficar com o dinheiro para usarem em seu benefício. Se transpuser esta situação para Portugal daqui a dez ou 15 anos, não sei o que isto vai dar.

Disse há pouco que temos o turismo. Pode chegar a uma altura em que deixa de crescer a este ritmo?

O antigo responsável pelo instituto de turismo disse que não podemos aspirar a sucessivas taxas de crescimento com dois dígitos porque isso, além de ser impossível, também cria saturação do ponto de vista de quem recebe. E quando um povo deixa de receber bem, começa a estragar. E umas das características que nós, portugueses, temos é que gostamos de receber bem, tentamos falar uma língua que não é a nossa e gostamos de mostrar aquilo que é bom. Corremos o risco é de criar um problema de saturação mas, ao que parece, e de acordo com os recentes dados do turismo, isso ainda não acontece. Isso é bom sinal e é sinal que temos a capacidade de acomodar ainda mais gente e, por essa via, conseguirmos reequilibrar a nossa diferença entre importações e exportações. Há muito espaço para crescer, espero que cresça sem sobressaltos e de forma organizada, e não da forma desorganizada como chegou a ocorrer em determinadas zonas do litoral do país. Os jovens é que começam a sentir que têm um problema, nomeadamente quando querem arrendar uma casa e têm uma grande dificuldade em conseguirem uma casa relativamente pequena a um preço acomodável com os baixos salários que recebem nos primeiros empregos. Em Portugal, os salários reduziram-se nominalmente, nos últimos anos, para os jovens.

A OCDE voltou a chamar a atenção para os riscos a médio prazo tanto externos como internos. Um desses riscos são as eleições em França e a ameaça de esse país sair do euro caso Marine Le Pen vença?

Isso seria um rombo e pode corresponder ao rombo do Titanic. Acho que é muito difícil sobreviver a uma Europa sem a França, e não percebo qual é o seu benefício em sair do euro. E é uma situação distinta da do Reino Unido. Admito que os britânicos sempre tiveram um enquadramento diferente, tinham uma comunidade que achavam que era muito próspera, com relações comerciais fortíssimas, e sempre mantiveram a sua moeda. E saem para uma comunidade que sentem que é muito sua, o Canadá, a Austrália, etc., ou seja, antigas colónias que têm uma implementação muito grande dentro do Reino Unido. O que não acontece com a França. Também teve colónias, nomeadamente em África, mas não sei se se querem virar para aí e proteger essas relações. Mas olhando para o discurso de Le Pen, o que vemos menos é a integração dessas pessoas. O que me parece é que querem restringir a França ao seu espaço natural, e isso é muito perigoso para os franceses.

E também para os restantes europeus…

Claro que há esse risco e também representa um risco muito grande para Portugal porque, neste momento, até estamos a aumentar a concentração das relações comerciais com a Europa. Com a Europa a fechar-se e a usar medidas semelhantes às que Trump quer ter nos EUA, temo que nós tenhamos mais dificuldades numa área que ocupa três quartos das nossas exportações. Mas há mais riscos para Portugal além da Europa. É o caso de Angola, que é um parceiro comercial português muito importante, assim como os Estados Unidos. Dos nossos grandes parceiros comerciais, o único que está aparentemente estável é a Espanha.

A OCDE também fala em riscos internos, em que um deles é a instabilidade financeira e o malparado. Concorda com a criação do banco mau?

Não vejo nenhuma necessidade de criar esse tipo de instituição até porque, para aliviar os ativos dos bancos, já existem instituições que o fazem. Os bancos já estão a vender carteiras de malparado a preço que se pode chamar de liquidação total. São valores muito baixos, mas existem instituições que compram esse tipo de créditos e depois fazem a sua gestão, assumindo eles a perda total, a recuperação ou o ganho imenso. Por isso, desse ponto de vista, não é necessário, pode é, se calhar, não ser em quantidade suficiente para a limpeza total, mas isso é uma questão de tempo.

E quem é que o financia?

O problema que se põe é esse e a que preço é que esse banco vai comprar os ativos. Se comprar a preço de mercado, o que vai fazer é concorrência aos outros; eventualmente faz um bocadinho de pressão na compra e, se houver interesse dos outros, podem disputar um bocadinho o preço dos ativos. Portanto, de alguma maneira, o que este banco vai fazer é valorizar um pouco os ativos dos bancos e estes agradecem, porque vão vender a um preço um pouco melhor. Mas quem vai financiar os privados? Então os privados já existem para fazer isso, mas aí não há qualquer diferença entre quem já faz isso e um novo player. A menos que este banco venha para comprar créditos a preços que não são de mercado.

E aí estaria a fazer um mau negócio?

Claro. Por exemplo, uma empresa falida a quem o banco concedeu um empréstimo de 100 milhões e esta não tem ativos, então o que é que a empresa vale? Na melhor das hipóteses vale um milhão, e agora vem este banco novo e vai comprar a tal empresa falida por 100 milhões. Não há nenhum privado que vá entrar nesse jogo, pois não vai comprar por 100 o que vale um milhão. Então quem sobra? Os bancos públicos, o Estado a financiar este banco? Isso não faz sentido. Então o Estado vai pedir dinheiro emprestado porque não tem para constituir um banco para comprar ativos ao valor nominal ou a qualquer outro valor acima do preço do mercado? E se for a um preço acima do mercado é meio caminho andado para a perda. Então, o que vamos fazer é transferir dinheiro do público para os ativos e assim valorizar os bancos. Mas só a Caixa Geral de Depósitos é que é pública. Mas é isso que se quer? Não consigo perceber onde está a beleza do negócio. Até entendia que os bancos privados sugerissem uma saída destas; agora, quem está à frente das instituições públicas propor um negócio destes? Não entendo.

Então qual é a solução?

O que os bancos têm de fazer é fechar rapidamente as imparidades. As auditoras que os auditam têm de ser rigorosas e imporem que os valores que lá estão são, de facto, verdadeiros para que isso seja refletido de uma vez por todas nas suas contas. Caso contrário, andamos sempre com estes problemas e depois descobrimos de um momento para o outro que, afinal, a Caixa tem milhares de milhões de euros em imparidades e o Novo Banco também. Isto quando houve oportunidade anteriormente de reconhecer todas as imparidades, até porque houve aumentos de capital e até era mais fácil de resolver a recapitalização dos bancos com dinheiros públicos. Essa maquilhagem, esse disfarce e essa “gestão” daquilo que é a forma de reconhecer as imparidades é sempre empurrar com a barriga uma questão que, mais tarde ou mais cedo, acaba por se revelar e não representa nada de bom. E depois fica sempre a suspeita de que os bancos portugueses têm muitas imparidades. Vamos então lá saber de uma vez por todas quais são essas imparidades. Então só quando existir um banco mau é vão reconhecer as imparidades? E saem a que valor? Se estão encapotadas, transferir para alguém a um valor superior aquilo que realmente é é estarmos a redistribuir aquilo que é dinheiros públicos para benefícios privados. Quem está à frente do Estado não deve tomar esse tipo de iniciativa.

A ideia foi apresentada pelo primeiro–ministro e foi apoiada pelo Presidente da República e pelo governador do Banco de Portugal…

Mas isso não está correto. O governo tem uma voz muito política, o Presidente da República também, e a única voz a que estou mais atento é à do governador do Banco de Portugal porque quer zelar pelo sistema financeiro. Politicamente é importante esta estabilidade e esta limpeza para não se contaminar potencialmente o risco da dívida pública, porque é fácil contaminar quando não se sabem bem os valores. Há quem fale em 20, há quem fale em 40, ninguém sabe coisa nenhuma, estamos a atirar uns valores para o ar. Mas se estamos a falar de 40 mil milhões é muito significativo para a dívida portuguesa. Se já temos uma dívida tão elevada e vamos meter mais 20, 30 ou 40, então ficamos mesmo com um problema sério porque, mais uma vez, onde é que vamos buscar o dinheiro? É mais 10, 15 ou 20% do PIB? Já temos 133%, vamos ficar com 150%? É um estouro monumental. Percebo que é simpático dizer que a banca já não tem problemas, mas depois a República explode.

E nessa altura surgem as agências de notação a ameaçar cortar o ranking… 

Claro, porque aí acham que ficamos completamente insolventes. Ficaríamos numa situação dramática. Não vejo qualquer benefício desta solução, a menos que isto seja feito à custa de uma contração brutal da despesa pública. Ou seja, em vez de se estar a aumentar os funcionários públicos, vamos outra vez cortar salários, retirar um mês das reformas para financiar os bancos.

E aí iríamos assistir a um tumulto?

Já se sabe o que vai dar. Quem gosta de ver o seu salário cortado, ainda por cima para o meter nos bancos? Vamos ver quanto tempo é que vamos ficar sem cortes.

Voltando à banca, como vê os últimos desenvolvimentos da CGD?

Na minha opinião houve um compromisso, não acredito que tenha havido um mal-entendido. Depois disto tudo, o ministro teve de reconhecer que possa ter existido um mal-entendido entre as partes, mas não acredito. São partes demasiado conhecedoras, particularmente quem impôs ou quem vinha com essa ideia. Se fosse comigo, confesso, vinham com essa proposta e provavelmente não aceitava, mas mesmo que aceitasse não fazia a mínima ideia que existiria outra lei e caía da mesma maneira que o ministro caiu. Compreendo o erro original, que é simplicíssimo de esclarecer. Provavelmente, os colegas da chamada geringonça não o entenderiam, mas para mim é simples: eu, de facto, comprometi-me, achei que era a forma de termos um pacote coerente e competitivo com o setor privado para irmos buscar as pessoas que queríamos, eles impuseram estas condições e, para sermos competitivos, achei que tínhamos de lhes dar essas condições. Percebemos que, afinal, havia uma lei e que aquilo que pediram não dava para manter. Eu tenho de pedir desculpa aos próprios, a todos, porque fiz mal, errei. No início era tudo muito simples.

Tanto que António Domingues já pediu a demissão no final de novembro…

Mas se ao início era tudo muito simples, agora há um problema que é o das declarações verdadeiras em testemunho na Assembleia da República, em que o ministro diz que não há nada, mas afinal há cartas e, mais recentemente, sms. Agora parece que não querem deixar passar os sms. Se os sms entre eles não passam de a que horas almoçamos ou a que horas jantamos, não há problema nenhum em mostrá-los.

É porque há algo mais comprometedor…

Não há a mínima dúvida. Por muito ridícula que tenha sida a audição de Bill Clinton sobre o caso Monica Lewinsky, este foi um exemplo do que é uma exigência de transparência e de declaração sobre ações, apesar de achar que nem sequer deviam ter sido questionadas as pessoas.

Porque era um assunto pessoal?

Era absolutamente pessoal. Agora ponha isto no presidente dos Estados Unidos: não tenha dúvidas nenhumas de que tudo isto seria escrutinado e ele teria de pôr cá fora os sms, a lista das chamadas, tudo.

Concorda com essa divulgação?

Parece que agora só há prova se houver alguma coisa escrita, pelo menos foi o que o Presidente da República disse. Então vamos ver se sempre há ou se não há.

Mas a esquerda não concorda que haja essa divulgação e muito menos que seja usada na comissão de inquérito…
Não vejo problema nenhum. Se não há mensagens comprometedoras, então mostrem lá os sms. Com certeza que não estão a tratar de um problema pessoal ou íntimo.

Acha que Mário Centeno tem condições para se manter como ministro das Finanças?

Por muito menos que isto já se demitiram muitos ministros. Ponho num prato de uma balança os prós e os contras e, apesar de não concordar com a política económica desenvolvida, Mário Centeno conseguiu fazer um esforço enorme de, pelo menos, cumprir o défice, e isso é muito importante. Ainda é um crédito, mesmo que tenha entrado em inconsistências. É pena que tenha de se demitir por isto. Eu deixava isso ao critério dele. Mas temos uma democracia muito jovem e estamos num processo de aprendizagem; isto, numa democracia estável, seria insuportável. Mas nós, portugueses, podemos perguntar se tudo isto é relevante mas, para quem for muito cioso do cumprimento da verdade, não importa se é importante ou se não é importante porque a questão é que ele mentiu e poderá continuar a mentir. O ministro sai fragilizado e na última conferência de imprensa já reconheceu que poderá ter havido um mal-entendido. Está a tentar pedir desculpa, só que ele faz política, e isso é tenaz e acho que não o vão largar mais.

E ainda faltam as declarações de António Domingues…

É uma pena porque o problema tinha-se resolvido reconhecendo o erro. Todo este caso tem sido uma novela sem grande significado, curiosamente.

E, com isto, a discussão do plano de recapitalização tem ficado para segundo plano. A Caixa vai ter agora alguma estabilidade?

Desde que estejamos a falar de um plano que tenha sido feito com base em informação fidedigna. Mas há aqui outra história mal contada. Como é que as informações foram parar às mãos de António Domingues quando ainda era administrador do BPI? Mas isso já nem importa porque, mesmo de forma inadequada, chegou informação suficiente, exata e relevante para fazer o plano. Foi feito, foi aprovado. Então acredito que tenha todas as condições para que seja feito agora um bom trabalho. Compete agora à nova administração avançar com o plano.

Acha que Paulo Macedo é a pessoa ideal para liderar este processo?

Sou amigo pessoal de Paulo Macedo, mas olho para o trajeto dele e vejo que consegue compatibilizar o conhecimento técnico com uma capacidade de encaixe e de resiliência notável. Tem uma forma particular de fazer gestão nas instituições e por onde tem passado tem deixado boas relações. Isso é um sinal de que ele tem características de gestão muito adequadas e, como tal, estou à espera que faça um bom trabalho. Já o fez nos impostos, acho que fez um trabalho bom no Ministério da Saúde. Conseguiu sair com uma imagem boa do ponto de vista político, até para os seus opositores, que o reconhecem como um dos melhores ministros.

E em relação ao Novo Banco, acha que é preferível a nacionalização ou a venda ao desbarato?

Dói-me o coração vender o Novo Banco ao desbarato. Mas também reconheço que a não venda leva-nos provavelmente a ter de injetar continuamente capital no Novo Banco. Gostava que o Novo Banco fosse vendido, não ao desbarato, mas que fosse possível negociar com Bruxelas equipar o Novo Banco de capital e administração que o pusessem em condições para que daqui, por exemplo, a cinco, seis ou sete anos fosse vendido – e, nessa altura, com ganhos. O que tenho visto é administrações a chegarem e a tentarem resolver problemas sem se conhecer a missão do Novo Banco e o empenho acionista. Não se conhece nada, estamos em processos de curto prazo. A solução intermédia, que é privatizar parcialmente, é capaz de não ser má de todo porque, se eles conseguirem dar a volta, pelo menos a nossa parte enquanto acionistas portugueses pode ser rentabilizada e vendida mais tarde.

Mas 50% público e 50% privado?

O que puder ser. Preferia uma administração que tivesse um mandato para conseguir executar um plano traçado com capital para depois vender, para ver se conseguíamos ter algum ganho depois disto tudo.

Como vê o desfecho da OPA ao BPI?

Tenho pena que aquilo que foram instituições financeiras portuguesas, e algumas delas com ideais, com dinâmicas e com esses acionistas, tenham terminado. Isso acabou. Mas de momento não estou a ver qual seria a melhor solução, optou-se por uma solução de pacificar o banco e pô-lo com uma orientação firme para aquilo que quer fazer. Nesse sentido, é bom. Infelizmente há uma coisa com que acho que devemos ter cuidado, que é a concentração de capital espanhol, que pode ser perigosa, sendo excessiva. Porque se houver um problema como já houve na banca espanhola, isso reflete-se em Portugal.

E como vê a liderança ir para as mãos de um espanhol?

São eles que mandam. Não vejo motivos para que seja um problema. Por exemplo, o Banco de Inglaterra foi buscar um governador canadiano. É interessante porque não há tanto compromisso com o mercado; provavelmente, quando terminar o seu mandato vai voltar para o seu país de origem. Isso também significa que poderá estar mais livre para tomar medidas que possam ser antipáticas para as instituições locais.

Assistimos recentemente a uma relação atribulada entre governo e os partidos que o apoiam na redução da TSU para compensar o salário mínimo. Já era expetável?

Para ser sincero, estava à espera que este atrito fosse provocado ou aproveitado mais cedo pelo Partido Socialista e que fosse aproveitado no sentido de haver eleições antecipadas. O Partido Socialista gostava de governar sozinho. O modelo de sociedade que o PS deseja para Portugal é diferente daquele que é proposto pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista, não tenho dúvidas nenhumas. António Costa está a usar a boleia do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista para conseguir uma coisa que é convencer o eleitorado de que o PS a governar é muito melhor para Portugal, para estar independente e para o país não estar tão instável. Eu leio desta forma e, ao ler isto assim, até pensava que os resultados de distribuição de rendimentos dessem efeitos mais cedo e, como tal, as pessoas iriam aderir mais depressa às teses do Partido Socialista e mudassem definitivamente a sua intenção de voto para o PS.

Pensava que isso seria para quando?

No limite, em março de 2017, porque tinham começado a apresentar as contas finais. Só que as contas foram boas, mas não foram assim tão boas quanto eles desejavam. Até podiam ter sido um bocadinho melhores tirando a questão da dívida porque, curiosamente, o Partido Socialista no governo foi além da troika, mas antes de estar no poder defendia que era um crime ir além da troika. Isto porque estavam a negociar um défice de 2,5% e, como tal, podiam ter sido mais generosos. Mário Centeno começou por ir a Bruxelas bater-se por um orçamento com um défice de 2,6%, depois teve de baixar para 2,5% e acaba com 2,1%. O que aconteceu aqui? Mas a verdade é que os efeitos não foram tão assim fortes para serem aproveitados para uma dissidência entre os partidos. Estava à espera que as divergências fossem mais fortes e mais óbvias. O que tenho visto é uma impensável capacidade do PCP e do Bloco de Esquerda para aceitarem coisas que eu achava impossíveis. Um desses exemplos foi a remuneração da Caixa Geral de Depósitos, em que os dois partidos encolhem os ombros e dizem que é o mercado. E isso faz-me uma grande impressão.

Acha que daqui para frente vai haver mais pontos de discordância?

Tenho admirado o poder de encaixe do Partido Comunista. Eles até já falam dentro das limitações impostas por Bruxelas, e isso tem acontecido com frequência nos discursos de Jerónimo de Sousa aos seus camaradas – um discurso semelhante ao de Passos Coelho. Já se conformam, quando a conversa não era essa há um ano. Mas acredito que quanto mais o Partido Socialista tiver a noção de que vai ter uma vitória com maioria absoluta, mais estará à vontade para esticar a corda, porque pensa que vai para eleições, ganha com maioria absoluta e não precisa mais dos outros dois. Essa é a minha leitura.

Enquanto isso não acontecer vai continuando a negociar…

Penso que a ideia de António Costa é ir tentando crescer em intenções de voto até que um dia está pronto a ir para eleições antecipadas.

E quem acha que vai partir a corda?

Sem dúvida que quem partir a corda vai ser prejudicado porque vai ser acusado pelos outros por a gerigonça não funcionar. O Partido Socialista não quer ser prejudicado porque quer ganhar mais no final e, por isso, vai pondo em cima da mesa propostas cada vez mais atrevidas no sentido de pôr dentro de uma governação de esquerda mais coisas à sua maneira. Acho que o Partido Comunista perde menos se quebrar e isso poderá ser um estímulo. Por outro lado, o Bloco de Esquerda, digam o que disserem, é um partido muitíssimo mais romântico do que o Partido Comunista e, como tal, poderá ficar pior na figura. Desta forma, não sei quem vai quebrar primeiro.

Ficou surpreendido com o apoio de Marcelo Rebelo de Sousa à geringonça?

Confesso que estou surpreendido. Mas às vezes não há necessidade de comentar todos os dias as notícias. Costuma-se dizer que a palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro. E comentar todos os dias as notícias para dizer que tudo o que se está a fazer é bem feito desvaloriza. Comentar apenas para dizer que aquilo que o governo está a fazer está a fazer bem não é necessário fazê-lo todos os dias. Não sei se é fruto dos novos tempos, também Donald Trump quer comentar todos os dias com os americanos e com o mundo através do Twitter, ele twitta todos os dias, coisa estranha. Acho que há vantagem em que alguns representantes de alguns órgãos se refugiem um bocadinho para que, quando a palavra venha, tenha mais impacto. Se calhar, Cavaco foi excessivo, havia muita reserva, e as pessoas passavam uma semana inteira a debater o que ele quereria dizer com determinada frase. Agora nem há tempo para isso porque todos os dias há palavras do Presidente.

É passar do oito para o oitenta…

Isto é um bocado energético a mais e também um bocado exagerado. Talvez ele não queira de todo ser acusado de estar a pôr qualquer impedimento ao governo. Ou seja, se o governo tiver um sobressalto, há uma coisa que não podem acusar Marcelo Rebelo de Sousa que é ter impedido alguma ação que tenha causado mau resultado. Mas um mau resultado é culpa não só de quem propõe, mas também de quem subscreve. Porém, uma coisa é certa. Também pode ser acusado do contrário: o senhor deixou que a criança se aproximasse do precipício e nem sequer a agarrou, nem sequer comentou. Ainda assim, parece que agora começaram as zangas com a questão da Caixa Geral de Depósitos.

Fonte: Tuga Press

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