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BRASIL - "Há suásticas pelas ruas, ascensão de Bolsonaro é já autorizar a violência"



Itamar Vieira Júnior é lusodescendente, nasceu e vive na Bahia. Em entrevista à TVI24, mostra-se muito preocupado com as “suásticas” que vê pelas ruas e no corpo de mulheres. “A ascensão dele já é uma autorização para que a violência se instale no país”. Ele, Bolsonaro.

Os tetravôs do prémio Leya 2018, Itamar Vieira Júnior, eram portugueses. De Braga. Ele era ferreiro, ela lavadeira. Emigraram para Salvador da Bahia no início do século XX. A família ainda lá vive, tal como o escritor, que tem passado “dias muito difíceis” no Brasil. A hora da verdade está a chegar: é o frente a frente entre Jair Bolsonaro (PSL, extrema direita) e Fernando Haddad (do PT de Lula da Silva).

Tenho 39 anos e nunca assisti a momentos como esse”, confessa o autor do livro Torto Arado, que na semana passada recebeu o prémio que distingue um romance inédito escrito em português.

Em entrevista à TVI24, por Skype, lamenta que o Brasil já esteja a viver uma “polarização” que tenha desencadeado uma “escalada de violência”, com o discurso de Bolsonaro a contribuir para este cenário preocupante.

A gente tem suásticas [símbolo nazi] desenhadas em igrejas, em muros, banheiros públicos, tem notícias de assassinatos, onde eu moro mesmo, em Salvador da Bahia, o assassinato de um grande músico, Moa do Katendê, morto por declarar voto em Haddad. A gente tem vivido essa escalada de violência, principalmente contra população de gays e lésbicas, contra mulheres, mulheres com suástica desenhada no corpo.

"Bolsonaro não precisa editar nenhuma lei retirando esses direitos. A ascensão dele já é uma autorização para que a violência se instale no país e já a estamos a viver

A medida defendida por Bolsonaro, para extinguir o estatuto do desarmamento do Brasil, em particular, parece-lhe completamente descabida. “Temos uma média 60 mil homicídios por anos. Países em guerra não chegam a esse contingente de pessoas mortas - e isso com o estatuto do desarmamento, que cria mecanismos para proteger a sociedade.”.

Se o candidato da extrema-direita ganhar o poder, poderá ser o próprio sistema político a estar em causa, no entender no escritor. “Creio que a democracia tende a se esgaçar se não houver nenhuma mobilização em prol da sua sobrevivência”.

Os brasileiros estão divididos, na própria família Itamar sente essa divisão. Mas ele defende que valores mais altos se levantam. “Não quero acreditar que o Brasil tenha uma sociedade que defende o fascismo”.

“Trauma vai permanecer”

O descontentamento da sociedade já tem anos com os governos do PT e o escritor sabe-o. Ao mesmo tempo, pareceu-lhe “natural” que viesse a ser Fernando Haddad a substituir Lula da Silva (que está preso por corrupção), nesta candidatura. Natural porque tem currículo, já foi ministro da Educação e prefeito de São Paulo. Lamenta a “campanha negativa muito forte”, responsabiliza também os órgãos de comunicação social brasileiros e o poder judiciário, “que se partidarizou. Tudo “muito nocivo para a democracia”. Vença quem vencer, “o trauma vai permanecer”.

Caso o Haddad vença, ele precisará de um apoio muito forte, de uma mobilização social muito forte, para garantir que ele assuma o poder e que tenha condições de governabilidade. Então os fiadores da democracia continuarão a ser os brasileiros. No caso de Bolsonaro, também precisaremos de estar mobilizados, vigilantes. Continuaremos a ser os fiadores da democracia”.

Torto Arado também servirá de alerta

Muito surpreendido” com o prémio Leya, o autor quer que a distinção seja também um meio de alertar a comunidade internacional e a comunidade portuguesa para os problemas por que o Brasil está a passar. “Tememos o futuro, a gente não sabe o que acontecerá com a democracia brasileira. Precisamos do apoio da comunidade internacional”.

Torto Arado é, precisamente, um retrato de um país rural que ainda existe, no nordeste. Os movimentos sem terras, por exemplo, poderão sofrer na pele as consequências das políticas de Bolsonaro.

Por diversas vezes me peguei emocionado pela história, de violência, de pessoas que lutam pela sobrevivência, que desejam um território, que desejam seguir plenas dentro da experiência humana.”.

Itamar é antropólogo. O livro distinguido com o prémio Leya vem daí, mas vem também de muito antes. Começou a escrevê-lo na adolescência.

Se nessa altura “ainda não tinha maturidade”, o tempo passou e já mais recentemente retomou a escrita. “Aí o livro ganhou densidade, complexidade, com toda a minha vivência, com todo o meu trabalho nos últimos dez anos com as comunidades rurais brasileiras”.

O lançamento em Portugal está previsto para Fevereiro do próximo ano. Itamar quer muito conhecer a terra de onde veio parte da sua família. Gostaria de fazê-lo descansado, sem cruzar o oceano Atlântico com o coração nas mãos.

Fonte e foto: TVI24
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